Gastar para sair da crise…?

1 04 2009

Como se financia isto tudo? Uma solução seriam os Eurobonds. Mas como a Alemanha não quer, continuaremos em recessão em 2010, ano em que se prevê a viragem nos EUA para a recuperação. E sabe-se lá quanto tempo mais…. Experimentem repetir isto a um absolutista do mercado livre e que ache que o Estado já tenha peso a mais. Eu aposto no insucesso da tentativa. Por isso nunca entenderão porque é que as estruturas económicas da Europa estão desenhadas de modo a ampliar os efeitos desta crise.

Carlos Santos, Eleições 2009

A ver se eu consigo explicar isto para idiotas: a Eurobond é uma ideia bonita que trará como consequência a médio prazo o fim do Euro. E para aqueles que dizem “so what?” a resposta é simples – a única razão pela qual Portugal ainda não faliu (ou a Espanha, ou a Grécia, ou a Irlanda…) é devido ao Euro.

O problema aqui é simples. Demasiado simples. Recompensar comportamentos irresponsáveis. Obviamente que a Alemanha não quer, porque a aAlemanha sabe muito bem quem vai pagar o preço. Os países prudentes da Zona Euro vão pagar a festa dos “irresponsáveis”. No strings attached. Isso é, na sua essencia, a Euro Bond. (obviamente que não exige um doutoramento em Macroeconomia para entender que se estamos a obrigar os prudentes a pagar pelos imprudentes, estamos a incentivar os prudentes a deixarem de o ser… se alguém me conseguir provar que isso é bom, pago-lhe um gelado!)

O problema em muitos países actualmente (EUA em particular) não é o preço do dinheiro – i.e., taxas de juro. O problema é insolvencia de balanços pessoais. Os particulares pura e simplesmente já não têm mais capacidade de endividamento. Consumimos hoje os nossos rendimentos futuros, em conjunto com os dos nossos filhos e netos. A solução é ir ao rendimento dos bisnetos?

Esta “deificação da dívida e do crédito” como maná do crescimento económico, parece um pouco como o mito do “motor de movimento perpétuo”, ou seja, um motor que gera mais energia do que aquela que consome. Obviamente impossível, pois viola o principio da Conservação da Energia. Nada se cria, tudo se transforma, é o principio base. O mesmo para a economia: crédito não é mais que rendimento futuro adiantado ao presente. Não é “dinheiro novo”, é uma transferencia inter-temporal. Não se criou nada, transformou-se, de amanhã para hoje. Obviamente que, se transferir-mos demais, do futuro para o presente, quando chegar-mos ao “futuro” temos pouca coisa. 

Tentar ir sempre adiantando o “futuro” para o presente é a essencia de um esquema em pirâmide, um “Esquema de Ponzi”! Eventualmente, a componente de juros é tão alta, que “afoga” a economia. Esta deixa de conseguir suportar o serviço da dívida. É aqui que estamos actualmente.

O “suposto Pai” desta fúria desenfreada de gastos públicos, Keynes, não concordaria com o que se está fazer. E para aqueles que continuam a citar Keynes a torto e a direito, sugiro que o leiam. Em especial, que se inteirem de um facto – Keynes não criou o conceito de “despesa deficitária do Estado”, ou seja, o Estado correr deficits para “incentivar a Economia, em especial o Consumo”. O inventor deste conceito foi um dos seus alunos, Abba Lerner. E depois de aceitar o argumento “conceptual” do seu aluno, Keynes acrescentou:

“but heaven help anyone that tries to put it across.”


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2 respostas

1 04 2009
Carlos Santos

Caro Guilherme,

Serviu o pingback para encontrar o seu blog. O que já não foi mau. Pena mesmo foi a linguagem: “explicar para idiotas” e ” doutoramento em Macroeconomia”. Primeiro porque corria o risco de alguém lhe devolver o epíteto. Segunto, porque para seu azar eu tenho um grauzinho desses.
Pondo estas coisas de lado, gostava que o seu brilhante raciocínio conseguisse explicar o seguinte:
- só não entraram em insolvência porque estão no Euro. Boa. Mas então porque se conclui que a Irlanda, que está no Euro, demorará 5 anos a recuperar? Que a Áustria, que tem o equivalente a 70% do PIB emprestado a leste, precisaria de uma política monetária própria se entrar um desses países em default? Porque teve a Espanha de salvar Domingo o primeiro Banco? E já agora, porque se estima que os EUA, que não estão no Euro, saiam da crise em 2 anos?
- outra nota, a Alemanha que idolatra está na sua maior recessão do pós guerra;
- e quanto aos esquemas de Ponzi, a dívida pública é por definição um encargo inter geracional. É chato para as gerações futuras. Mas prefere isso ou deixar-lhe um mundo falido?
Já agora, submeta esse liberalismo absolutista que parece professar ao teste da verdade: http://tinyurl.com/c4r9gt.
E da próxima, pode-me um deixar um comentário in loco. Eu não levo a mal. Já agora, eu li o Keynes. E pelo que percebo, fui dos poucos. Ah, e li também o Hicks…

Carlos Santos

5 09 2011
Dieter Dellinger

Eurobonds não serão o equivalente a títulos de tesouro? Os bancos centrais emitem moeda adquirindo títulos de tesouro aos Estados, ou seja, no caso de Portugal ao Instituto do Tesouro. Segundo o manual de Macroeconomia de Dornbosch e outros, uma economia para crescer 3% deverá ter tido um crescimento de moeda da ordem dos 1,5% que traduzido no agregado monetário M3 pode dar mais. Os Eurobonds seria uma forma do BCE emitir mais moeda que é algo que os alemães não querem por temerem a inflação. Eles têm razão no sentido em que na Alemanha trabalha-se à pele. Os salários são elevados e as margens de lucro muito baixas, a Alemanha tendo uma alta tecnologia não a transferiu para a China porque seria vender a corda com que se enforcaria, na metáfora de Lenine. Sempre que há mais procura os preços alemães sobem mais que os outros. Daí serem os alemães contra a criação de um Instituto do Tesouro da Zona Euro, mas Trichet e a Sra. Merkel já deram a entender que aceitam qualquer coisa do género desde que tenha poderes de regulação e propõem reuniões mensais dos Ministros das Finanças da Zona Euro porque sabem que os gregos não vão conseguir pagar dívidas com juros que chegam aos 50% sem inflação na zona euro. Ninguém consegueria e os bancos alemães que estão a receber esses juros julgam que estão a ganhar dinheiro, mas não estão, a depressão generalizada e o colapso das bolsas mostra que nunca se pode cobar juros de 50%. Os bancos podem acreditar nisso, mas o mercado é principalmente feito por cidadãos que não são idiotas e daí reagirem mal nas bolsas e nos consumos. A situação portuguesa é semalhante com uma média de juros a 10% da sua dívida pública. Portugal está quase em recessão e pode economizar muito mais, fazendo crescer o desemprego para níveis insustentáveis, entrando ainda mais em recessão atá ao incumprimento total, o qual se for simultâneo com o grego levará a um colapso do Euro com prejuízo para toda a gente, incluindo a China, cujos produtos se tornarão muito mais caros.

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