PPD vs PSD

Só sabendo de onde viemos podemos saber para onde vamos. No caso do PPD/PSD é preciso avivar a memória: viemos da Ala Liberal da União Nacional, partido único do Estado Novo.

 Nascemos de um grupo de deputados de direita conservadora que queria Democracia e Liberdade em Portugal. E lutou por ela, na Assembleia Nacional, tentando enfrentar um regime fascista que já tinha passado o seu “prazo de validade”. Nascemos PPD (Partido Popular Democratico) e acolhemos sociais critãos, liberais, pequenos empreededores e conservadores democratas. Todos os que não se reviam nem na direita autoritária com grande tradição em Portugal nem no Socialismo – democrático ou não – foram acolhidos neste projecto. Mas depois mudámos de nome: passámos de PPD a PSD (ou PPD/PSD, como Santana Lopes faz questão de relembrar constantemente).

 Foi uma mudança ideológica? Nem por isso. Foi puro taticismo político de um homem [Sá Carneiro] que lutou pela sobrevivência do Partido enquanto tal. A seguir ao 25 de Abril de 1974 ser de direita era sinónimo de ser “fascista” e não era conveniente lembrar quem eram os fundadores do PPD (ex-deputados do Estado Novo), por muito democratas que fossem – e a história veio provar que o eram!

 Ser “social democrata” era a condição essencial para a sobrevivência. Não esqueçamos que estamos a falar dos mesmos que, durante a Ditadura do Estado Novo tentaram reformar e democratizar o sistema político por dentro. Não eram adeptos de revoluções, mas sim de transições, pelo que preferiram garantir que o PSD sobrevivesse e viesse a ser opção ao socialismo do que “morrer por insensibilidade tactica” – risco que o CDS decidiu correr, embora se tenha “pintado” de “centro democrático e social”.

 Para quê esta conversa toda? No último fim de semana, passaram 35 anos desde essa época. Não entrarei em discussões se Abril está para cumprir ou não, ou se ou feriado devia ser o 25 de Abril ou o 25 de Novembro [eu tendo para o último mas considero que, em última análise, não passa de um fait diver]. Pertenço a uma geração que, felizmente, não viveu nem o Estado Novo nem o PREC. Pertenço a uma geração que, por isso, tem o minimo distanciamento para analisar esse periodo de forma correcta e critica, sem desvios. Nascemos em Democracia, vivemos em Democracia, e não admitimos outro regime político que não a Democracia. Não é isso que está em causa – pois se não fosse o 25 de Abril e o 25 de Novembro, eu não poderia estar aqui a escrever.

 O que está em causa é o enviesamento político que ainda subsiste em Portugal. O que eu gosto de chamar de “O trauma da direita”. Ninguém no seu juizo perfeito, rezam as crónicas, admite que é de Direita. Muito menos Direita Liberal Conservadora. Sacrilégio! Fascistas! E, temos várias consequências deste trauma. A primeira é que acabamos a ter dois partidos “social democratas” em Portugal, compondo 85 por cento da Assembleia da República. Um travestido [leia-se PSD] que é forçado a fazer programas social democratas por puro taticismo eleitorial e outro [leia-se PS] que finalmente entrou no seculo XXI. E não se confudam, o Partido ao qual pertence o espaço da Social Democracia é o “burgo ali ao lado”, o Partido Socialista que, finalmente, se modernizou e aderiu à Terceira Via [Comunistas e Bloquistas irão decerto contestar isto mas adiante].

 E isso levou a duas outras consequências: a abstenção nos actos eleitorais [em particular dos jovens] e a deriva do PSD enquanto opção política, desde que, sejamos honestos, perdemos o poder em 1995 – a verdade é que, de 1995 a 2009 não chegámos a governar 4 anos seguidos!

 Guterres tentou colocar o PS na via da Social Democracia Reformista (no sentido europeu do termo) mas faltou-lhe pulso. Pulso que, gostemos ou não da personagem em questão, Socrates teve. E isso colocou o PS a governar na área onde o PSD costumava ocupar. E dado que nunca assumimos o nosso “corpo ideológico”, herdado desde a fundação, andamos à deriva dos lideres. Toda a gente sabe que, no que diz respeito ao PSD, o lider faz o partido. Se o lider é forte o partido torna-se forte [e esta é a minha esperança com Ferreira Leite], se o lider é fraco o partido enfranquece. Não temos um corpo de ideais que assumamos: esta é a nossa opção! 

E, mais importante que isso, não temos uma opção verdadeiramentealternativa ao socialismo, hoje operado sob a forma de Social Democracia Reformista (favor ver SPD alemão, Partido Trabalhista inglês, PSOE espanhol, e muitos outros). Um verdadeira Direita Liberal em Portugal. Alguns estarão neste momento a pensar “isso não é o PSD… somos um partido Social Democrata Reformista, não um partido ‘democrata cristão’”. É mesmo? Somos mesmo isso, ou habituamo-nos ao “rótulo” e ao “taticismo eleitoral” porque não nos queremos assumir e sabemos que a actual formula – até recentemente com o ‘recentrar’ do PS – funciona? Quem é capaz de contestar o seguinte, como principios defendidos por todos os militantes do PPD/PSD: 

O homem é explorado quando se sente asfixiado pelo aparelho burocrático do Estado;

O homem é oprimido quando, por qualquer modo, lhe é vedada a liberdade interior, ou a abertura ao transcendente espiritual;

O homem é oprimido quando a sua vida privada não decorre com a necessária intimidade;

O homem é explorado, a qualquer nível, quando é sujeito ao exercício tirânico da autoridade ou a imposições abusivas de minorias activistas;

O homem é explorado quando a sua consciência de pessoa é abafada pelas massas ou é objecto de manipulações da sociedade de consumo.

Contra todas as formas de exploração e de opressão, urge lutar, mobilizando as múltiplas conquistas do progresso, com vista a uma nova ética da vida em colectividade.

 Os mais rápidos dirão que isto é o programa do PSD. Desenganem-se… Os mais atentos identificaram de onde vem a citação acima: são os principios da Democracia Cristã europeia, a base fundadora dos partidos de Direita Liberal na Europa. E estão correctos! Somos um partido fiscalmente conservador, económicamente liberal e, com maior ou menor grau, mais ou menos moderado, socialmente conservador. Somos, na nossa essencia, um partido de Direita Liberal e Democrata Cristão. Um “Partido Popular”. Ou acham que foi por mera coincidência que o lugar onde encontrámos “casa” na Europa foi, em primeiro lugar o Partido Liberal Europeu e, desde Marcelo Rebelo de Sousa, o Partido Popular Europeu?

 E depois queixamo-nos que o Povo Português se queixa que “entre o PS e o PSD, só mudam as moscas” ou que os jovens não votam [para quê votar quando, no final do dia, a solução acaba a ser a mesma?]. A única diferença prática é que governamos a Diesel: somos mais baratos e económicos!

 Deixemo-nos de ilusões e assumamos aquilo que somos. Um partido de Direita! Refundemos a Direita em Portugal [e, sejamos honestos, somos o único partido à direita que tem massa critica para esse empreendimento] e deixemo-nos de traumas. A direita sabe ser tão democrata como a esquerda. Esta última não tem o monopólio do Social. Simplesmente advogamos formas diferentes de chegar ao mesmo objectivo. E talvez, só talvez, exista uma faixa da população, que comece a votar. Pois, no estado actual de coisas, uma enorme faixa de pessoas de direita liberal não votará porque não vê a sua “opção prática”. E se calhar o Povo Português – bem mais sábio do que julgamos ou queremos admitir – tem toda a razão quando diz que PS e PSD são iguais. Este último, por mera tactica de poder.

 Não é saúdavel ter um sistema político centrado à esquerda. A balança deve estar centrada. Isso implica uma Esquerda moderna e democrata, ou Social Democrata, e uma Direita moderna e democrata, ou Direita Liberal. E é deste conflito, desta concorrência que se encontram as soluções para o país, não entre um Partido Socialista convicto e um Partido Social Democrata “assim-assim”, embora por dentro, não acredite na mesma, ao ponto de inventar a “Social Democracia Portuguesa”!

 Porquê este discurso todo num blog de um militante da JSD? Porque julgo que esta tarefa nos compete a nós, juventude. Não virá do Partido, demasiado agarrado a lutas pelo Poder ou traúmas do passado recente. Virá da nova geração que não ganhou traumas [para nenhum dos lados] e por isso tem o espirito critico para empreender esta tarefa. Uma geração com ideias diferentes que decerto terá a coragem de ter as “dores de parto” desta iniciativa. E deixo aqui um repto ao Gabinete de Estudos da JSD. Sem malicia, ou gincana política, desafio a actual CPN [que apoio e ajudei a eleger enquanto congressista no último Congresso Nacional] de criar um grupo de trabalho para este tópico: Refundação. Repensar a política, dar um corpo ideológico ao PPD/PSD, assumir aquilo que somos e, se calhar, voltar às origens: voltarmos ao PPD!

 Porque, e para terminar que o Post já vai longo, não o fazer poderá acarretar ficarmos fora do Governo durante muitos mais anos. O PS finalmente evoluiu e isso implica que temos, nós PPD/PSD, que nos assumir e evoluir também. No processo, completar o último passo para uma democracia saudável, uma democracia centrada e não enviesada. E cabe à JSD fazer jús ao repto que Emidio Guerreiro nos lançou: cabe à JSD ser a linha avançada do PSD e a sua consciência critica!

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8 pensamentos em “PPD vs PSD

  1. Frederico Carvalho diz:

    Parabêns pelo teu pensamento aberto e espirito observador de quem procura ajudar outros a encontrarem uma consciência critica, para analisar a história e o seu processo de militância, no PSD.

    Apreciei a tua escrita,
    Abraço,

  2. Amigo Guilherme subscrevo inteiramente!

    Considero esta reflexão ideológica extremamente importante e decisiva.

    Com uma clarificação ideológica e um novo posicionamento é evidente que o Partido conseguiria alargar significativamente a sua base social de apoio.

    Vejamos:

    a) Novos quadros adeririam ao Partido;

    b)Com uma definição clara doutrinária o eleitorado iria responder positivamente;

    c) Quantas vezes não ouvimos ” os dois Partidos são praticamente iguais”?;

    d)permitiria que o PSD ocupa-se todo o campo do centro-direita de forma a disputar o “centro”;

    e)originar que eleitorado que normalmente se abstén exerce-se novamente o direito de voto;

    f) levaria o PS a preocupar-se ainda mais com as forças políticas á sua esquerda sobretudo numa fase onde estas obtêm já valores que em sondagens representam 1/4 eleitorado;

    g)A família política do PSD é o Partido Popular Europeu!

    h)O CDS/PP também vai regressar ao PPE!

    É evidente que a refundação da direita cabe ao PSD!

    Em Espanha, o Partido Popular (PP), na Itália, por exemplo, o Partido do Povo da Liberdade(PDL),
    na Alemanha, a CDU, os Conservadores no Reino Unido.

    Ora isto implicaria que o PSD se refunda-se, assuma no que verdadeiramente é um Partido Democrata-Cristão, fiscalmente conservador, económicamente liberal e socialmente moderadamente conservador.

    Sem traumas, sem medos!

    Lembremo-nos da maioria absoluta de Cavaco Silva em 1991!
    Como a obteve?

    Ocupando todo o espaço do centro-direita e convencendo os eleitores do “centro”.

    É evidente que desde António Guterres o PS se recentra no campo social democrata, na terceira via de Tony Blair e Gerhard Schröder.

    Deste modo, uma vez que o PS ocupou a nossa área,área essa que é deles o PSD não deve temer ocupar a área que naturalmente é a nossa: a democracia cristã.

    Com um corpo ideológico definido e claro, a direita ficaria unida e poderia se recentrar a política portuguesa podendo assim batalhar com o PS pelo centro.

    Tal como Emídio Guerreiro referia a JSD “..são os contrutores do futuro
    ideal”.A JSD é a consciência crítica do Partido.

    Somos tão liberais quanto Sá Carneiro o foi quando fundou a ala liberal!

    Um Abraço Amigo

  3. Estes jovens social democratas são uns conservadores natos loolololololololol

    Força nisso!

  4. JFD diz:

    Guilherme, como sempre … ***** :)

  5. Parabéns. Na mouche. Análise (auto-crítica) extremamente bem feita e realista. Há que separar as águas e assumir-se o que se é. Sem complexos. Portugal ficará a ganhar.

    Vítor Coelho

  6. Guilherme,

    Gostei bastante da tua análise. Parabéns!

    1 Abraço,

    Pedro Jesus

  7. [...] aqui e aqui disso. Também no conselho distrital de Lisboa, me atrevi a referir este tópico, a uma semana das [...]

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