"É a inflação, estupido"

Uau! 3,9% de crescimento. 116 mil novos postos de trabalho. Impressionante. Isto é que é fugir a uma recessão. Ou será?

Vamos ser um pouco cínicos e advogados do diabo por uns minutos. Comecemos pelos números do “emprego”. 116 mil novos postos de trabalho criados na economia norte-americana, acima das expectativas. Mas vamos colocar os números em contexto: Dos 116 retirem 36 mil postos de trabalho adicionados via Estado Federal norte-americano, ou seja, mais funcionários públicos. Sobram 80 mil, dos quais 50 mil são contabilizados como “Lazer e hotelaria”. Para os mais incautos: é aqui que se insere trabalhos como servir às mesas em restaurantes. Dos restantes 30 mil, cerca de dois terços são professores – isto no mês em que as escolas começam as aulas. Curioso. O sector industrial perdeu empregos liquidos. O sector financeiro perdeu empregos liquidos. O sector tecnologico idem idem aspas aspas.
“Pera ai… então as pessoas estão a ser despedidas das grandes industrias e bancos e a arranjar emprego a servir à mesa?” – basicamente, sim! Alias, visivel pela média de remuneração horária recebida, que desceu.

“Mas olha lá: 3,9 por cento de crescimento! não há grande volta aqui a dar” dirão os mais “bulish”. Bem, tecnicamente até à grande volta a dar. Mas antes disso, vamos a uma pequena distinção que os economistas fazem e se esquecem de explicar: Nominal vs Real. Eu posso medir o PIB em termos nominais, ou seja, crescimento de um periodo ao outro, simples. O problema é o nivel de preços. Se as coisas crescem e os preços crescem no mesmo valor, eu fiquei na mesma. Pelo que eu, enquanto economista, deflaciono quantidades nominais – usando um indice de preços chamado “deflator do PIB” – para chegar ao crescimento real. Um mera brincadeira matemática: dividindo o crescimento nominal pelo real dá-me o deflator implicito nas contas.

O crescimento nominal dos EUA no 3Q foi de 4,7 por cento, ABAIXO das expectativas – que eram de um crescimento nominal de 5,1 por cento. Ora 1,047/1,039 (os 3,9 por cento foram supostamente crescimento real) = 0.0078. Ou seja, o deflator do PIB implicito, que mede o indice de preços do periodo foi de 0,8 por cento. “Por isso é que a Fed baixou as taxas de juro. Não há pressões inflacionistas na economia e a malta que faz as contas nunca iria usar um deflator baixo de proposito se não fosse a inflação real, certo?”. Bem, errado. Os EUA usam a “core inflation”, que desconta “food” and “energies”, ou sejam, mede tudo o que quizerem menos inflação. E se forem ver a inflação média dos últimos 7 trimestres – e a inflação exibe caracteristicas reversivas à média, tal como a volatilidade – é de 3,1%. Ora vamos la ver o que acontece ao PIB real com uma inflação média de 3,1%. Opps. 1,047/1,031 – ou seja estou a “deflacionar” preços – é igual a 1.55%!

Vamos a um exemplo idiota: 10 “bloggers” compram 1 pacote de açucar cada um. O pacote de açucar, por idiotice, custa 1 euro. Esta “mini-economia” tem a rubrica de consumo privado com 10 euros (10 “bloggers” a comprar 10 pacotes de açucar ao todo, a um preço de 1 euro/pacote). O açucar aumenta 10%, e custa hoje 1,10 euros. Os mesmos 10 “bloggers” gastam agora 11 euros em consumo privado, mas eu enquanto economista não deflaciou-no estes 10% porque a minha medida de inflação não tem o preço do açucar (“core inflation – sem “food” e “energies”), pelo que o PIB aumentou magicamente 10%!! Isto é pura inflação não contabilizada…

Voltando aos USA. O consumo privado aumentou, mas aumentou quando tudo quanto era energia e soft commodities está a ir em direcção à lua. Mas esses não entram na inflação pelo que qualquer estatistica de crescimento vem “enviesada”, e os valores reais vêm “sobre-estimados”.

“Mas olha lá! Por que raio é que vocês não contam com comida e combustivel na inflação lá nos states?” Bem a desculpa oficial é que os preços são demasiado volateis. O que nós economistas nos esquecemos de dizer é que é de todo o interesse de qualquer Estado que corra um deficit orçamental com divida publica ter inflação alta. Chama-se “senhoriagem” e age como um imposto. De forma simples: eu, Estado, peço emprestado 100 euros e pago 4%/ano e digo-vos “ah e tal, a inflação é 2%/ano” pelo que voçês são compensados. Mas se a inflação for mais alta, digamos 6%, então vocês estão a perder 6% e eu a pagar 4% ao ano. Ao fim de 10 anos (sim os Estados endividam-se a longo prazo) voçês precisam de 179 euros para comprar o que dantes custava 100. Mas eu paguei-vos de volta 148 euros. Vocês foram taxados em 31 euros pelo caminho e não deram por isso. Outra brincadeira fiscal é que activos financeiros, ou casas por exemplo, tendem a valorizar com a inflação. Compram uma casa por 100 mil euros. A inflação é de 6%. Ao fim de 10 anos vendem-na por 179 mil euros. Tecnicamente vocês não fizeram dinheiro, apenas mantiveram poder de compra. No entanto, o Estado vai-vos taxar esses 79 mil euros como “mais valia financeira”. Dai a inflação servir de imposto e o Estado ter todo o incentivo de a ter o mais alto possivel sem a malta dar por isso…

Bem e como este post já vai longo – peço desculpa por isso – termino a dizer:
Cuidado com as estatisticas! Não há nada mais facil que manipular PIBs/inflação/emprego, e nem tudo vai tão bem como parece em terras de tio Sam. Mas isso fica para outro post

One thought on “"É a inflação, estupido"

  1. Paulo Colaço diz:

    Muito bem dito, Guilherme: nada mais fácil que enganar que as stats!

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