Regular o que não se deve…

Que houve falhas de regulação no caminho para esta crise isso é evidente. Mas não sei se não se está a colocar a tónica na falha errada (desregulação). A verdade é que muita regulação vigente foi (bastante) mal construída.

Começando pelo Glass-Steagall Act, parcialmente repudiado em 1999 pelo Gramm-Leach-Bliley Act, no que diz respeito à exigência da divisão de facto entre banca comercial e banca de investimento. Eu não diria que esta – o fim do Glass-Steagall Act – é a causa do actual descalabro. Muito pelo contrário. Passo a explicar:
A divisão clara que era obrigatória pelo Glass-Steagall Act cria, na minha opinião, uma acrescida pró-ciclicidade no balanço dum banco. E aqui discordo profundamente do que dizem: o modelo que ruiu não foi aquele previsto num mundo sem “Glass-Steagall” (um mundo de “Broad Banking”) mas sim um mundo em que este estaria ainda em vigor: o mundo do Banco de Investimento independente. Foram exactamente esses que falharam, e os dois que sobraram foram no fim de semana, rapidamente passados a “banking holding”.
Reparem bem nas diferenças entre a UE e os EUA: o modelo de Wall Street era exactamente único a Wall Street. Não existem na Europa Bancos de Investimento “independentes”, mas sim, divisões de Banca de Investimento integradas numa holding bancária “tradicional”. Os problemas do Barclays, RBS, Deutsche Bank, UBS e HSBC, foram as suas divisões de investimento. A Europa é um mundo bancário sem “Glass-Steagall”.

E se pararmos 2 segundos – e nos afastarmos desta guerra preto-branco, socialistas-libertários – vemos que a separação entre um e outro – o modelo que morreu no fim de semana em Wall Street – é mau para o sistema. Uma divisão de investimento tem um aumento de fluxo de caixa – estou a simplificar – em épocas de crescimento. Mas em épocas de abrandamento, as pessoas tendem a tirar o dinheiro de investimentos e colocar nas suas contas à ordem e a prazo. Logo isoladamente os balanços são prociclicos, mas são-no em épocas diferentes: em Bull ganha o banco de investimento, em Bear ganha o banco a retalho, para simplificar. Torna-se então obvio: a separação dos dois aumenta o risco. O Broad Banking reduz o risco no balanço agregado. E veja-se a europa: a UBS safou-se, enquanto banco, porque a sua divisão de investimento teve “onde cair” – são os maiores wealth managers do mundo. O Deutsche Bank idem idem aspas aspas. Por contraponto, a Bear Stearns e a Lehman Brothers não tinham onde cair. Globalmente, eram pró-ciclicos, mas separados de uma unidade comercial: tal como estipulado pelo Glass-Steagall, embora já não em vigor.

Mas note-se também que a culpa do subprime não morre solteira em Wall Street, no que diz respeito ao Subprime. E se ninguém contesta o efeito (nocivo) da politica do Sr. Allan Greenspan (um dos pais desta alhada), frequentemente esquecemo-nos que Wall Street não criou o motor do subprime unica e exclusivamente por ganancia:

O Carter assinou o  Community Reinvestment Act que proibia os bancos de restringirem as suas ofertas de crédito a segmentos seguros e obrigando-os a alargarem-no ás chamadas «minorias», de mais elevado risco;

Clinton segue e alargou significativamente a base  do CRA, baixando significativamente os requisitos para se obter empréstimos, possiblitando e incentivando a concessão de emprestimos imobliários;

O Bush “filho” aprovou o The American Dream Downpayment Initiative que visava apoiar financeiramente a compra de casa por quem não reunia as condições para a obtenção de um empréstimo imobiliário, pretendendo, em cinco anos «criar 5 novos milhões de proprietários».

Por muito nobres e bem intencionados que foram (ou talvez, simplesmente eleitoralistas e populistas), esqueceram-se duma regra básica: risco pagasse! Mas na impossibilidade de “cobrar” esse prémio de risco, surgiu uma invenção: o modelo originação e distribuição. A culpa não morre mesmo solteira aqui.

No entanto concedo que falhou uma regulação: ainda estou para perceber por que raio as Credit Default Swaps ainda são OTC. Não me confundam, acho que um mercado OTC (desregulado, como OPEX, em Portugal) é extremamente útil. Permite a empresas pequenas financiarem-se e terem acesso a capital que de outra forma não teriam. O problema é tamanho. E isso vesse: quando uma empresa adquire tamanho > n, passa para mercado “normal”, passo a expressão, saindo de OTC. Isto faz sentido: size matters, os mercados são sistemas complexos, e como tal adquirem assimetrias de informação. Essas assimetrias devem ser combatidas, sob pena de “destruirem” o mercado (selecção adversa, problema principal-agente). O que eu não entendo é como é que se deixou que as Credit Default Swaps – um instrumento válido e com sentido – ganhassem o tamanho que ganharam permanecendo em OTC. Não há informação, logo o mercado “treme” sempre com a possibilidade de um unwind de CDS com uma grande falencia. Ninguém sabe quem deverá o que a quem… e aqui, os reguladores falharam de uma forma muito grave!

One thought on “Regular o que não se deve…

  1. […] O que o autor ignora é que, embora com alavancagem ainda excessiva, o problema europeu não é exactamente o mesmo. Por um lado, os balanços dos bancos europeus são menos sensiveis ao ciclo – menos “pró-ciclicos” – exactamente porque na Europa funcionamos com o conceito de “grande banco” com várias divisões: banca comercial (depósitos) e banca de investimento.  Os movimentos em cada parte do ciclo, nestas duas áreas do balanço, tendem a anular-se (como eu expliquei aqui).  […]

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