Europa vive com tempo emprestado?

[Nota prévia: este post foi um pedido de um comentador, sobre um artigo do Finantial Times publicado ontem e replicado pelo Diário Económico]

 

O artigo pretende ilustrar que, apesar de tudo, os bancos europeus têm tantos ou maiores problemas que os norte-americanos. No limite, concluí o autor, estamos a “viver com tempo emprestado”.

A determinada altura o autor refere:

The crucial problem on this side of the Atlantic is that the largest European banks have become not only too big to fail, but also too big to be saved. For example, the total liabilities of Deutsche Bank (leverage ratio over 50!) amount to about €2,000bn (more than Fannie Mae) or more than 80 per cent of the gross domestic product of Germany. This is simply too much for the Bundesbank or even the German state, given that the German budget is bound by the rules of the European Union’s stability pact and the German government cannot order (unlike the US Treasury) its central bank to issue more currency. Similarly, the total liabilities of Barclays of around £1,300bn (leverage ratio 60!) are roughly equivalent to the GDP of the UK. Fortis bank has a leverage ratio of “only” 33, but its liabilities are three times the GDP of its home country of Belgium.

 

O que o autor ignora é que, embora com alavancagem ainda excessiva, o problema europeu não é exactamente o mesmo. Por um lado, os balanços dos bancos europeus são menos sensiveis ao ciclo – menos “pró-ciclicos” – exactamente porque na Europa funcionamos com o conceito de “grande banco” com várias divisões: banca comercial (depósitos) e banca de investimento.  Os movimentos em cada parte do ciclo, nestas duas áreas do balanço, tendem a anular-se (como eu expliquei aqui)

Isto porque, alavancagem não é intrinsecamente má! Ela apenas magnifica perdas e ganhos no balanço (neste caso dum banco) e aqui a pergunta que deve ser feita não é só “qual é o ratio?” mas também “qual é a correlação entre os diversos activos?”

 

Vamos simplificar um pouco (e pelo meio, dar uma pequena introdução a gestão de risco):

Eu quero investir e para isso desenvolvo uma estratégia, ou seja, decido uma “política de alocação”. De uma maneira mais corriqueira: quanto apostar em cada volta e em cada activo! Se eu apostar 100% do meu capital num único activo, eu vou perder tudo. A questão é somente quando. Mas, se eu apostar 10%, por exemplo, o valor esperado torna-se positivo (na maior parte dos activos, como acções por exemplo, ou até num simples jogo de “moeda ao ar”). Ou seja, eu ganho consistentemente sem o risco de falência. Posso me alavancar? Não! Se eu me alavancar num ratio de 10x, o efeito perder-se-á: é como se eu tivesse voltado atrás e aposta 100% num activo. A única questão que sobre é o “quando vou à bancarrota”.

 

Existe no entanto uma altura em que eu me posso alavancar: se as minhas apostas individuais não forem positivamente correlaccionadas (se forem não correlaccionadas ou independentes também serve). O que quer isto dizer? simples: correlação positiva entre dois activos é quando um toma direcção A o outro segue na mesma direcção. Nós queremos o oposto: que eles se anulem (ou não mexam ao mesmo tempo).

 

Nestas condições, eu tenho um conjunto de “políticas de alocação” que no global ou não mexem na mesma direcção ou simplesmente não mexem umas com as outras. Pensem num jogador num casino:se eu jogar 100% numa mesa de blackjack, a questão é “quando é que eu vou perder”. No entanto, se eu jogar 10% em 10 mesas (o que na prática equivale a “alavancagem”) eu não vou à ruina. Isto porque, as mesas de blackjack não estão correlaccionadas. Quando se perde numa, isso não significa que se vá perder nas outras 9!

 

Voltando à banca europeia, este é o ponto que o Finantial Times se esqueceu (em abono da verdade, é um tema que não se aprende na faculdade mas sim, na gestão de um portfólio de mercado, por experiência acumulada). Não só os valores da banca norte-americana não são comparaveis à banca europeia (Wall Street não tinha, por exemplo, um balanço de depósitos onde “cair”, o que os levou à falência, ao contrário de por exemplo, o Deutsche Bank ou a UBS) como a correlação dos activos não é a mesma nos balanços.

Os EUA estão numa generalizada deflação de activos global – fruto da desalavancagem do sistema bancário – e neste momento, estão todos positivamente correlacionados: mercado imobiliário desce, capital próprio das familias desce, perdas de credito aumentam, credito futuro diminui, acções descem, e por em diante. Esta “pró-ciclicidade” não se verifica na Europa. Em primeiro, não tivemos a bolha que os EUA tiveram no mercado imobiliário. Em segundo lugar, o consumidor europeu não está tão “esticado” – temos uma taxa de poupança positiva de 10 por cento, enquanto eles têm uma poupança nula – e, em terceiro lugar, os depósitos são independentes, tal como as mesas de blackjack.

 

Esta é a razão de existir do sistema fraccional: a única razão para um banco entrar em falência é o seu balanço  ficar “positivamente correlaccionado”. No caso de um banco tradicional, uma corrida aos depósitos na mesma altura. Existem  problemas na Europa, como é óbvio. Mas é mais uma crise de liquidez: os bancos necessitam de liquidez adicional de modo a reduzirem os seus balanços e suportarem algumas perdas – algo que tem sido providenciado pelo BCE com uma taxa de juro – mas não existe a componente ciclica dos balanços dos grandes bancos, pelo menos não na medida em se verifica nos EUA.

 

Qualquer dúvida, a caixa de comentários é vossa!

2 thoughts on “Europa vive com tempo emprestado?

  1. Miguel diz:

    Muito clara a resposta, obrigado.
    Passarei a ser cliente da casa :-)))

  2. […] entanto, o cenário europeu é bastante diferente (tal como já tinha explicado aqui). Antes demais a “montanha” no gráfico, no post anterior, está circunscrita a apenas […]

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