Europa vive com tempo emprestado? (a sequela)

Existe uma enorme diferença entre insolvência e falta de liquidez. Tal como explicado no post anterior, grande parte dos bancos norte-americanos estão neste momento insolventes – e alguns já falharam, outros estão a ser atirados para casamentos forçados.

No entanto, o cenário europeu é bastante diferente (tal como já tinha explicado aqui). Antes de mais, uma “montanha” semelhante à do gráfico do post anterior, está circunscrita a apenas alguns países – notavelmente, Espanha e Irlanda (e fora da “zona Euro”, o Reino Unido) – por contrapartida do imobiliário Alemão e Francês, relativamente estaveis.  Mas dúvidas permanecem depois de um artigo do Finantial Times e, em especial, depois do fim semana termos assistido a operações de “salvamento” de 3 bancos europeus: o inglês Bradford & Bingley, o belga Fortis e o alemão Hypo Real Estate.

 O gráfico abaixo é muito simples de ler: os bancos foram organizados por um múltiplo – capitalização de mercado a dividir por divida total em circulação. Basicamente, estão hierarquizados por grau de alavancagem: quanto mais alto, mais perigoso.

Múltiplos de alavancagem por capitalização

Múltiplos de alavancagem por capitalização

 

Como se pode ver, os 3 ilustres “resgatados” deste fim de semana estão no topo da tabela com ratios de alavancagem bastante elevados. Outro ilustre nome prestes a “rebentar” parece ser o alemão Deixa. Com estes níves de alavanca, não é muito dificil ser-se insolvente. Usando a Hypo Real Estate, o mero movimento de 2 por cento nos portfolios sobre gestão garante que se vai perder 92 por cento, via alavancagem. Jogo algo perigoso, para quem não tinha depósitos, ou tinha uma base pequena o suficiente: uma pequena pró-ciclicidade no balanço implode com o mesmo.

No entanto, os “grandes” europeus – BBVA, HSBC, Deutsche Bank, … – não estão numa situação tão problemática. Não se trata de um problema de solvência nestes casos. Obviamente, que não estou a dizer que a Europa está isenta de problemas! Mas estes são intrinsecamente diferentes: são um problema de liquidez. Veja-se a tabela abaixo:

Alavancagem de curto prazo

Alavancagem de curto prazo

 

É o mesmo raciocinio do anterior, mas desta vez só contamos com dívida de curto prazo – inferior a 1 ano – que tem de ser “rollada” no mercado (ou seja, recomprada e revendida, na sua maturidade). Outra vez, por exemplo, os senhores da Bradford & Bingley voltam a estar na ribalta. Esta dívida tinha de ser “rollada” nos mercados de crédito (aqueles que estão parados), pelo que, não podendo e tendo um balanço insolvente, tiveram que ser salvos. E embora o balanço do Deutsche Bank, por exemplo, também contenha um grau elevado de dívida de curto prazo – 24 por cento da sua market cap – não só é algo que se pode gerir – pois não têm um grau elevado de alavanca de longo prazo – como, num caso extremo, o BCE pode cumprir a sua função de “Banco de último recurso”, facilitando liquidez temporária aos bancos, em troca de activos que eles tenham.

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