Porque é que o plano Paulson vai falhar…

Parece que o Congresso dos EUA finalmente se pôs de acordo no que diz respeito ao “Plano Paulson”. O plano a ser aprovado esta semana vem com umas pequenas alterações ao original. Em vez de 700 mil milhões de dólares, o novo plano prevê que o dinheiro seja entregue em tranches – a começar com 250 mil milhões de dólares iniciais – ao mesmo tempo que os ordenados dos gestores serão limitados. De 3 passa para 106 páginas cheias de soluções, entre as quais a suspensão do “mark to market” – ou seja, os bancos deixam de ter de reconhecer os preços actuais dos seus activos, e passam a poder usar os preços históricos, neste caso mais elevados – e podem usar as reservas que eram obrigados a manter na Reserva Federal.

Funcionará? Na minha opinião, a resposta é um grande “não”! O problema está no gráfico abaixo:

Imobiliário norte-americano

Imobiliário norte-americano

A “montanha” é o mercado imobiliário norte-americano. Aqui reside o verdadeiro problema. De uma forma simplista, estamos do lado errado da montanha. O problema é que a “saúde” do sistema financeiro depende do preço de pico do imobiliário. A caterva de derivados que hoje estão a corroer os balanços bancários são viaveis no pico, não na base da montanha. 

O erro fundamental do Plano Paulson é não admitir isto: que os preços das casas vão (de facto, têm de) descer. E ainda nos falta pelo mais 10 a 20 por cento de descida, o que pode demorar 5 a 8 trimestres (1 a 2 anos). O plano Paulson não faz mais que comprar activos que continuam sobreavaliados, na fé de que o mercado está errado, e a montanha não cai. Seria o equivalente a dizer em 2001 que sites que valiam mais que PIBs de pequenos países eram avaliações justas e não uma bolha.

Outro grande problema é que estamos a seguir – embora de forma mais rápida – a doutrina japonesa. O Japão teve, grosso modo, o mesmo problema: um sector bancário alavancado em empréstimos em falência, suportados por uma bolha imobiliária de proporções assustadores (um metro quadrado ao pé do palácio imperial valia tanto quanto Manhattan inteira!). Porquê? Devido a décadas de “políticas activas” que, de uma forma simples, externalizaram o risco. Este não tinha de ser gerido, era competência do Estado que o fazia activamente! Quando a “montanha ruiu” – elas invariavelmente caiem – o sistema ficou sem “chão”. E os japoneses seguiram um plano simples: comprar os empréstimos em default (Non Performing Loans na gíria da gestão financeira) como dinheiro público, injectar dinheiro nos bancos sem contrapartidas e esperar pelo recuperar dos preços. O problema é que estes nunca recuperaram! Pelo meio, a politica monetária do Banco do Japão – em fase ultra-expansionista tal como a Reserva Federal no momento – perdeu toda a sua eficacia: a famosa e infame “armadilha da liquidez” de Keynes, antes um conceito teórico, era uma realidade vivida. O resultado? Um sistema financeiro zombie, agarrado pelo Estado, e 15 anos de crescimento perdido (no que seria depois conhecido como a “década perdida”). O plano Paulson segue exactamente a mesma linha de pensamento…

 

Existe um ditado entre quem negoceia na bolsa: “come as tuas perdas antes que elas te comam a ti!” É um erro básico em que todos acabamos a cair. Temos uma perda, e em vez de reduzir-mos os prejuizos, apostamos tudo naquele “movimento mágico que vai recuperar tudo, quando o mercado voltar a subir e nos der razão!”. Esta história acaba sempre, invariavelmente, da mesma forma: um buraco na carteira!

Parece familiar? Pois é! É exactamente isto que os japoneses fizeram – e pagaram por isso – e é exactamente isto que os americanos se preparam para fazer. Colocar dinheiro dos contribuintes para aumentar a conta, “naquele trade mágico que vai recuperar tudo, quando o mercado imobiliário voltar ao nível onde estava”. O problema é que, para isso, vão ser precisos qualquer coisa como 10 anos, assumindo que já batemos no fundo… o que ainda não fizemos!

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