A crise explicada a crianças de 4 anos

Muita gente me tem dito que, por muito que eu tente, não consegue perceber o que se passa nos mercados. Ok, vamos tentar uma abordagem diferente. 

Imaginem que têm uma empresa de compra e venda de berlindes! A vossa empresa de 10 mil euros de capital. O mercado de berlindes está óptimo. Aquilo sobe a 10 por cento ao ano e cada berlinde custa hoje 1000 euros (nota de rodapé: eu criei as condições para que o mercado de berlindes subisse mas ignorem por um momento isso). E vocês pensam “Ganda negócio… com 10 mil euros eu compro 10 berlindes e ganho 10% ao ano! Excelente”. Compram 10 berlindes: capital próprio 10 mil euros e activo 10 berlindes a 1000 cada um. 
Mas depois pensam assim: “epá… se eu conseguisse comprar mais berlindes é que era bom… se isto rebentar ali o Guilherme segura o barco! Ele faz sempre isso!”. Olham e vêem que podem pedir dinheiro a outros mortais com uma taxa de juro muito baixa no curto prazo (depois agradecem-me). Quando eles vos pedirem, vocês pagam dívida com dívida e continuam a jogar. E pensam: “lindo…ora bem, 10 mil euros… se eu pedir mais 90 mil euros, consigo comprar mais 90 berlindes!”. E assim fazem. 
Agora têm: 10 mil euros vossos, 90 mil euros de passivo (dívida de curto prazo) e 100 mil euros de activo (100 berlindes a 1000 cada).
Passa um ano e os vossos berlindes valorizaram. Agora valem 1100 cada um. E pensam, “Porreiro, fiz 100 euros por berlinde, são 100 berlindes, logo dupliquei o meu dinheiro…tenho 10 mil euros”. E heis que pensam outra vez, “Pera ai… se eu voltar a meter estes 10 mil euros e fizer a coisa outra vez, posso comprar mais 100 berlindes. Se correr mal, ali o Guilherme agarra… não há problema”.
Ficam agora com 20 mil euros de capital, 180 mil euros de divida e 200 mil euros em berlindes. Por ano podem fazer 20000 euros, porque os berlindes tendem a crescer 10%.

Agora, imagina vocês, que os berlindes eram uma bolha (eu andei a brincar com os juros, e induzi muita gente a pensar como vocês). E heis que eles começam a cair. Vamos ser simpáticos. Cairam 1%. Ora 1% de 200 mil euros são 2 mil. E vocês pensam, “Ai, perdi 10% do meu dinheiro, mas calma…isto vai parar, deixa cá mexer um pouco na contabilidade”. E os berlindes continuam a descer. Imaginem que já vão em 5%. Contas feitas já perderam 5% de 200 mil euros, ou seja, limparam 10 mil euros da vossa conta. Andam a brincar com a contabilidade para ninguém reparar mas na prática já perderam 50% do teu dinheiro.

E pensam “Vá…calma…ok vou vender isto… há quem compre!”. Opps, não há. É que os berlindes hj valem 1045, e tecnicamente o preço oferecido é menos – porque a malta sabe que os berlindes vêm por ai abaixo – mas vocês querem vender os berlindes a um valor não muito longe de 1100. Mas só vos oferecem 1000 ou 950. Bem, mas a esse preço vocês perdem tudo. Estão “insolvente”.

Ai vem a correr “Guilherme Guilherme tou lixado… tenho aqui os berlindes e ninguém mos vende” e eu digo-vos “Ok, estás a perder quanto?” e vocês, “Epah, 1000 euros por trimestre, daqui a nada fecho portas!” e eu respondo “Ok Ok, dá cá uns berlindes, toma lá os 1000 euros e aguenta-te ai”. E assim passa um ano: vocês vão-me dando berlindes em troca de dinheiro…mas os berlindes estão temporareamente na minha mão. Tecnicamente são vossos. Logo, continuam com problemas.

Ok, pelo meio, o resto da malta reparou no que se passava e perceberam o que se estava a passar com a tramoia dos berlindes. Ninguém vos empresta mais dinheiro! Estão contra a parede…

Ao que eu vou a um congresso pedir: “dêem-me lá uns 20 mil euros para eu tratar ali do rapaz coitado, senão é o fim do mundo como o conhecemos”. Mas eles não comem: ou não gostam da ideia, ou não têm dinheiro ou simplesmente já fizeram o 2+2=4. 

ual a solução? Bem, a tua empresa tem 20 mil euros de capital e 180 mil euros de credores (alavanca, 1-10).
O valor de mercado dela é 40 mil euros, por exemplo. Então chega eu e digo: Ok, acabou a brincadeira. Tomem lá 40 mil euros, e deem-me as acções todas. Ok, o vosso balanço agora tem 60 mil euros e 180 mil euros de dívida (entretanto os accionistas, vocês incluido estão a arder, mas a vossa alavanca diminuiu para 1-3). Eu quero apagar o fogo definitivamente, e pego na vossa divida. dos 180 mil, 100 mil são divida de curto prazo não segura (malta que tb não compreendeu bem o conceito de RISCO). Ok, esses eu não garanto: estão por vossa conta. Sobram os 80 mil de divida segura. Eu faço um air cut de 20%, ou seja, essa divida passa a 64 mil euros. Os 16 vão para capital. 
Têm agora: 74 mil euros de capital, 64 mil euros de divida que tem de ser cumprida e 100 mil euros de malta que pode arder. ratio de alavanca: 1-2 (saudável, para empresas não financeiras, se forem bancos podem ir até aos 10, mas isso é fora do exemplo).
OK. Eu pego no raio dos teus berlindes e coloco-as numa outra empresa, a preços muito baratos (750, por exemplo). Ai alguém pensa: “hum, berlindes baratos… deixa cá tentar a sorte!”. É especulador: se perder perdeu, se ganhou, bom para ele. Mas, sem os berlindes e com tudo reestruturado, vocês até têm um bom negócio. E ali dois concorrentes adoravam comprar o que sobrou. Eu digo “quem dá mais” e ele pagam-me, por exemplo, 50 mil euros. Porquê? Porque já não têm os berlindes a estorvar e a vossa divida foi reestruturada. São agora um grande negócio.
Eu começo a sair pela esquerda baixa: meti 40, ganhei 50. Os accionistas e credores junior pensam: noutra não me meto tão cedo, e vocês pensam “para a próxima já sei: o Guilherme não é assim tão simpático!”.

Percebem agora?

Chamem à empresa Fannie Mae, AIG, Goldman Sachs, chamem-me a mim Reserva Federal e coloquem bastantes zeros nos valores e uns mecanismos um pouco complexos e ai têm a trapalhada… 

Bem vindos ao mundo da alta finança!😉

2 thoughts on “A crise explicada a crianças de 4 anos

  1. Karocha diz:

    Brilhante!

    Muito obrigada vou passar a palavra.

  2. mantra diz:

    Como é que explicria esta notícia antecipada?

    daqui:
    http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/347980

    ‘Crash’ bolsista
    Analista escocês anuncia tempestade na Wall Street para Setembro
    Bob Janjuah, o estratego de crédito do Royal Bank of Scotland, aconselhou os clientes a prepararem-se para um “crash” de grandes proporções depois do Verão.

    Jorge Nascimento Rodrigues
    11:06 | Quinta-feira, 19 de Jun de 2008

    Link permanente: x

    Jin Lee/AP
    As bolsas, a começar pela Wall Street, poderão ter um “crash” de grandes proporções depois do Verão
    Bon Janjuah voltou a assustar os clientes do Royal Bank of Scotland. No ano passado, este estratego de crédito tinha antecipado a crise do “subprime” em alguns meses. Agora veio com novo prognóstico: as bolsas, a começar pela Wall Street, poderão ter um “crash” de grandes proporções depois do Verão. A precisão dele vai ao ponto de referenciar Setembro como o mês de risco.

    Ainda que seja temerário apontar com tanta precisão um mês exacto para a tempestade, pois a dinâmica das bolsas comporta-se como um sistema não linear, a chamada de atenção deve ser tomada a sério.

    Os accionistas são o elo mais fraco de uma cadeia longa que vai das casas financeiras e bancos (afectados pelo “subprime”) aos cidadãos hipotecados e com serviço de dívida crescente. Os bancos centrais – nomeadamente a Reserva Federal norte-americana e o Banco Central Europeu – estão confrontados com um dilema estratégico:

    – ou continuar a baixar as taxas de juro (que já estão abaixo da inflação) fornecendo dinheiro barato (a taxa negativa) aos bancos em apuros e aliviando a pressão sobre a classe média, o que é politicamente correcto, mas levará ao agravamento dos desequilíbrios (desvalorização do dólar, continuação do disparo dos preços das “commodities”, agravamento das balanças comerciais e dos défices externos, tumultos sociais face à inflação);

    – ou rapidamente inverter a politica monetária para fazer face à situação de estagflação (estagnação do crescimento, ou mesmo sinais de recessão económica, com inflação crescente acima dos limiares oficiais admitidos), elevando as taxas de juro, com custos elevados a nível bancário, económico e social, o que é politicamente incorrecto e de alto risco também.

    Pelo que, resta à ‘mão invisível’ dos mercados financeiros actuar no elo politicamente mais fraco – as bolsas. Veremos se Bob Janjuah acertará desta vez.

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