Crashou!

Tecnicamente foram 770 pontos no Dow Jones, mas isso é um mero promenor. O “plano Paulson” foi rejeitado e o mercado reagiu!
A proverbial “60 milion dollar question” é, há saída? Há! E tem estado sempre à frente do nariz (e muitos tem sido bastante verbais sobre a mesma). Segue um pequeno “road map”:

Atirar dinheiro ao problema não é a solução. Não contando com os 700 mil milhões de dólares do Bailout, já foram “atirados” 1,5 biliões de dólares pela Reserva Federal. São 10% do PIB dos EUA! O problema base do raciocinio era este: atira-se dinheiro até os preços dos activos que estão a corroer os balanços dos bancos recuperarem, para níveis que sejam sustentáveis para os seus balanços. O problema é que só daqui a 10 anos é que isso vai acontecer!
O “ataque cardiaco” que todos falam nos mercados de crédito deu-se aquando da falencia da Lehman Brothers, quando se viu um buraco de 110 mil milhões no balanço. Basicamente, eles estavam a preçar mal os seus activos. A questão surgiu: quem mais tem este problema? A pergunta deixa de ser “quem é liquido?” e passa a ser “quem é solvente?”. E o mercado pura e simplesmente deixa de funcionar!

A única maneira de desbloquear o “impasse” é colocar as cartas na mesa – e admitir que uma parte do sector bancário norte-americano é de facto insolvente.

O Estado entra com injecções de capital. Em troca, pede acções preferênciais no mesmo valor. Isto torna a coisa mais “simples”: não é o contribuinte a investir, é o contribuinte a servir de agente para uma troca – o dinheiro dos accionistas entra para dentro das contas. Depois, segura-se a dívida senior (a primeira na linha de recepção aquando duma falência, e exactamente aquela que ficou “branca” quando viu a Lehman Brothers) a um nível perto dos 80 centimos. Isto significa cerca de 20% de “hair cut” a serem reduzidos na divida (ou seja, por cada dólar emprestado podem receber de volta 80, o que é o normal que divida senior recebe em caso de falência! o problema foi que na Lehman, receberam 12 centimos por cada dolar emprestado).

Divida junior permanece em risco. Há uma lição a ensinar aqui: divida junior (em especial de curto prazo, a grande causa da alavancagem excessiva dos bancos) é arriscada. Com esta medida, o “premio de risco” deste tipo de dívida sobe, para os actuais e futuros “gigantes”. Pensem num “imposto” que o mercado impõe ao tamanho. Quanto maior, mais “imposto”. Isto levantará capital suficiente para “desalavancar” estes balanços. Em vez de termos empresas que, por cada 40 ou 60 dólares que têm, 49 a 59 são emprestados, passamos a ter empresas em que por cada 10 dólares apenas 9 são emprestados. 

O próximo passo é limpar a casa. Assumir as perdas e usar o que na gíria se chama o esquema “good bank/bad bank”: todos os activos que estavam a corroer os balanços são retirados para uma nova holding (o “bad bank”), e o que sobra (o “good bank”), passa a ter um balanço possível de gerir sem um buraco negro. Deste modo, o interesse privado volta a ressurgir: dado que toda a gente sabe onde anda o lixo (no “bad bank”), passa a haver ofertas pelo “good bank” (quem não quer ser dono da Goldman Sachs ou da Morgan Stantley? Consigo pensar em 4 ou 5 bancos europeus e asiáticos que se matavam para ter a oportunidade!). Assim o Estado sai de cena, vendendo as suas acções preferenciais (a probabilidade de as vender com lucro é muito muito alta).
Sobra o “bad bank”. O problema daquele lixo nunca foi falta de compradores. Muitos especuladores estavam interessados. O problema era que não estavam dispostos a pagar “prémios” de 50 ou 70% aos bancos, e estes não podiam vender a preços “verdadeiros”, porque senão faliam. Havendo o “bad bank”, está lá tudo à mostra para nos próximos anos haver propostas de especuladores (e haverá quem estará disposto ao risco, é por isso que os especuladores recomendam-se para o bom funcionamento do mercado).

Resta a Europa! O Trichet fala hj às 17h (embora não apostaria numa descida das taxas de juro). Se o plano que foi chumbado fosse para frente, as taxas de juro nos EUA iriam subir (mais oferta de obrigações face à procura = preço desce = taxas de juro sobem) e iria colocar o dólar sobre uma enorme pressão, dólar esse que só tem sido agarrado devido aos esforços do BCE, Banco do Japão, Banco da Russia, Banco da China e os Bancos do Golfo Pérsico. Não teriam força para aguentar a pressão, e ficariam acorrentados à espada da inflação a 2 digitos e um mercado de crédito moribundo.

Seguindo o plano acima, o mercado de credito de curto prazo desbloqueia porque já se sabe quem tem o quê – em última análise, responde-se à pergunta do momento, o “quem é solvente”. O BCE cumpriu muito bem o seu papel nesta crise. Aguentou o dólar comprando reservas e fazendo “swaps” com a Reserva Federal, não baixou as taxas de juro, pelo que, dada a corrida às obrigações europeias, as taxas de longo prazo por cá estão mais baixas. Isto dá espaço para a consolidação de balanços de empresas e familias para o longo prazo (se tivesse baixo as taxas de juro, estaria na mesma situação da Fed: taxas de longo prazo a subir ao mesmo tempo que as taxas de curto prazo rebentam com a tensão). Restou apenas ao BCE fazer a gestão de liquidez. E ai reside a diferença: os EUA têm um problema de solvência, a UE tem um problema de liquidez! 

Com os mercados desbloqueados, os bancos podem agora reconsolidar os balanços, e os que não conseguirem temporariamente continuam a dispor das facilidades de liquidez criadas em Agosto de 2007. Os pequenos que possam falhar – e note-se que a Fortis, no big picture do BCE não era um evento “sistémico”, além de ser expectável – deverão ser tratados caso a caso, da mesma forma que os americanos.

Um ultimo apontamento:
Este plano acima descrito não tem nada de “inovador”. É o “modelo nórdico”, considerado o exemplo de como lidar com uma crise bancária sistémica, originada por uma bolha de crédito e imobiliário [para os que gostam de história, ver a Suécia e a Finlândia de 1992 a 1996, o tempo que eles demoraram a recuperar para os níveis de preços que tinham ou a Coreia do Sul em 1998/2001 para um exemplo mais “market oriented” mas com a correspondente “violência” no ajustamento].
O modelo que Paulson ia usar é conhecido como a “doutrina Japonesa” e foi usado em apenas 7 de 42 crises bancárias (México, Rep. Checa, Jamaica, Japão, Bolivia, Paraguai e Malasia), com resultados maus para a economia e para o contribuinte – demoraram todos cerca de 10 anos a recuperar os estragos. 

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