Como estrangular uma economia (versão Paulson)

 

As implicações do Plano Paulson são ainda mais graves do que simples “risco moral”/”roubo aos contribuintes”.

Tecnicamente os bancos (em especial os americanos) fundam-se via depósitos ou via mercado de papel comercial (crédito curto prazo, maturidade inferior a um ano). Neste último, os Fundos de Mercado Monetário (fundos MM) são os GRANDES players. Um americano médio (ou gestor financeiro médio) coloca o dinheiro num fundo monetário e este vai comprar papel comercial no mercado monetário. O banco, que vende o papel comercial, pega no dinheiro (que encara como um depósito) e converte-o numa hipoteca. Ok, o problema neste momento é que o mercado de papel comercial está virtualmente parado. Ninguém sabe quem tem o quê, ninguém empresta, a USD Libor explode (taxa de juro de curto prazo). Ok, so far so good, isto já tem sido explicado quase até à exaustão.

 

 

Fluxo MM

Fluxo MM

O problema grave é:

Para onde foram os Fundos MM? Fugiram para as obrigações do Tesouro norte-americano, um instrumento 100 vezes mais seguro. Logo, o que se tem de fazer é mandá-los de volta para o o Mercado Monetário: eles são a peça que falta naquela engrenagem…. mas heis que hoje reparei no seguinte (contas cortesia do Bank of America):

Para financiar o TARP (partindo do pressuposto que nos ficamos pelos 700 mil milhões) vão ser precisos cerca de 925 a 975 mil milhões de dólares, entre o início e 2010. E aqui estão muitos pressupostos – recovery ratio não desce mais, defaults não aumentam, correcção não dura muito mais tempo (pressupostos que não serão muito realistas, mas chega para o ponto que quero fazer). Portanto, quase 1 bilião de novas obrigações vão ser emitidas (presumo que isto é uma maneira de evitar expandir o balanço da Fed, como o Japão teve de fazer nos anos 90). Problema técnico é que, em média, o público tende a deter (em mãos privadas entenda-se), cerca de 700 mil milhões de notas de tesouro (valor médio desde 2003). O resto é detido por Bancos Centrais e outros meninos. Mas este valor explodiu desde Agosto de 2007: +135%, para os 1.65 biliões, ao mesmo tempo que houve uma fuga generalizado por parte de bastantes investidores, para a Europa. 

Ou seja, temos aqui oferta a mais. Segundo as continhas do Bank of America, estando os fundos de MM no mercado do tesouro, eles absorvem parte das necessidades de financiamento (400 mil milhões), mas desta forma mantêm-se o impasse no MM – crowding out – e a tensão na USD Libor mantêm-se. Ao mesmo tempo, sobram 500 mil milhões em cima de um aumento de 135% face à média. Além do efeito óbvio de excesso de oferta – yields sobem ainda mais e propagam-se ao resto da curva – temos ainda que, na prática, isto vai tornar cada detentor privado num “comprador de papel comercial”, ou seja, no limite, em vez de ser a USD Libor a descer, é a taxa de juro média (presumo que sejam emitidas OTs a 10 anos, que estão a 4%) a convergir com a Libor (que está a 6%). 

Ou seja, não só, não acalmas o Mercado Monetário como coloca um garrote à economia com uma curva de juros mais plana e mais alta ao mesmo tempo que se mantém a dúvida “quem é solvente e quem não é”. Em suma, corre o risco de transformar uma crise de liquidez numa crise grave de crédito ao longo de todas as maturidades…

One thought on “Como estrangular uma economia (versão Paulson)

  1. […] e baixas de impostos – de modo a faze-lo passar na Camâra dos Representantes. Como já disse aqui, este plano vai ter muitas “consequências não […]

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