Change – Versão Geitner

Em alternativa, este post também se poderia chamar “Estão insolventes, Estúpido!”.

Esta semana foi revelado o chamado “Plano Geitner”, o plano que o Secretário do Tesouro Norte-Americano, Tim Geitner, tem para resolver a crise financeira. Tive a penosa tarefa de o ler. Penosa pois, em 7 páginas de pdf, não existe nada de novo. Alias, sendo honesto, não existe plano. Existe um conjunto abstracto de linhas guias que definirão o rumo a tomar num futuro plano…

 

O que está errado neste filme? Os pressupostos!

Muitos se perguntam o seguinte:  com tanto corte de taxas de juro, com tanto subsidio, como é que ainda não se resolveu o problema? Porque é que o crédito não flui? “Porque os banqueiros querem é bonus…” dirão alguns. (normalmente, a seguir vem o “Yes we can!” e o “Change!” e São Obama abre o Mar Vermelho e fica tudo bem)

A resposta é um bocado mais complexa, no entanto. Tem a ver com incentivos e medos. A ver se desta vez consigo explicar isto em português.

Durante anos, os bancos andaram a jogar cara ou coroa. Cara, o banco ganha, Coroa, o contribuinte perde. A razão era simples: entre as garantias sobre os depósitos e os “salvamentos porque o banco é sistemico”, era impossível o banco perder. Logo, o crédito fluia. Na realidade, fluia com rapidez a mais. 

Dá-se o estoiro do “sub prime”. Mas os bancos continuam a emprestar. “Ah, Cara ou Coroa outra vez?” dirão! Nem por isso. Os incentivos agora são um pouco diferentes. A música parou, e neste momento os investidores que financiam o mercado interbancário estão a pensar: “Opps… Ok, quem, no sistema, esteve tão metido nisto que está em risco?”. Em resposta, nenhum banco abranda. O primeiro a abrandar é o primeiro a revelar fraqueza (e a ser “pedurado” pelo mercado). É um jogo de “chicken”, versão bancária. [Chiken é o jogo americano em que 2 carros circulam um contra o outro. O primeiro a vacilar e desviar, perde!].

O jogo eventualmente acaba. Alguém treme (ou cai). O Estado entra e injecta dinheiro. Então qual é o problema agora? Uma simples pergunta: quem é o próximo a ter o Estado na mesa do conselho de administração? E esta pergunta não é irrelevante! 

Tal como já disse ao longo de vários posts, durante muito tempo a pergunta no mercado tem sido “Quem está iliquido e quem está insolvente”, e é isso que tem forçado os Bancos Centrais a financiar com liquidez o mercado interbancário. Com a intervenção do Estado, surge outra pergunta: quem vai ser nacionalizado por não ter capacidade?

Ponham-se na pele um banqueiro. Têm duas opções: business as usual, i.e., continuam a emprestar embora, estejam em risco de falência (ainda para mais, o Estado ajuda e, contraproducentemente, obriga a maiores ratios de capital) ou, contraiem o volume de negócio para preservar o banco e aproveitar todo o tostão e centimo para recapitalizar o banco sem admitir as perdas? Não é uma questão leve, pois “business as usual” pode levar-vos a serem tomados pelo Estado. Alguém quer isso? Pois…heis que o crédito pára…

Intervenções do Estado no sistema bancário têm de ter 3 linhas guias:

a) Responder definitivamente e sem margem para dúvida: quem é insolvente?

b) Não colocar na mesa a segunda pergunta: quem é o próximo?

c) Salvar o sistema não é igual a salvar bancos e accionistas!

 

Vai a Bold que é para se ver bem o que devia ser óbvio! Voltando ao Tim Geitner… afinal qual é o meu problema com o Plano? É que de “Change” só tem o nome…do Sec. do Tesouro que o apadrinha. O novo plano parte do mesmo pressuposto do anterior Plano Paulson: o mercado está errado, o sistema bancário não está insolvente e, se atirar-mos dinheiro suficiente, o sistema recupera e o contribuinte não é apanhado com a factura. Ora bem, por ordem, Errado, Errado, Errado (e o contribuinte vai ser apanhado no meio com a factura!).

 

O mercado não está errado. Prova disso é o seguinte artigo do Finantial Times:  Almost half of all the complex credit products ever built out of slices of other securitised bonds have now defaulted. Em português corrente, os preços destes produtos complexos (que estão a sangrar o capital dos bancos por estarem a descer) estavam correctos. O mercado conseguiu antecipar correctamente que metade de todos os instrumentos em questão não iriam pagar o que era susposto.

O sistema bancário norte-americano está insolvente, i.e., não tem capital suficiente para suportar as suas responsabilidades. Note-se que isto não se traduz para português como “todos os bancos estão falidos”. Existem bancos solventes, mas os grandes – Citi Group, Bank of America, etc. – estão muito provavelmente, abaixo da “marca de água”. Atirar dinheiro para “tapar” o buraco é criar bancos zombie! Bancos tecnicamente insolventes mas mantidos vivos com recurso às maquinas. Foi este o problema do Japão: de 1990 a 2003, não deixaram os bancos insolventes falir, e não nacionalizaram o sistema para expurgar os activos tóxicos do sistema. Resultado foi uma banca que não emprestava porque não podia, nem tinha incentivos para isso!

Terceiro, atirar dinheiro ao problema não é a solução. Eu achava que isso tinha ficado óbvio com o TARP (Plano Paulson), mas parece que não. Parece que se convenceram de que o problema do TARP era “oversight” (ou falta dela). Errado! O TARP está errado por design, com ou sem supervisão!

A solução? Vamos ignorar durante uns segundos que isto já podia ter sido resolvido, com menores custos para o contribuinte ou que, o principal responsável por esta “trapalhada” é o Estado (Alan Greenspan!). Eu posso ter simpatias “austriacas” mas não sou autista! É preciso limpar o sistema, recapitaliza-lo e retirar dele os activos tóxicos.

“Guilherme, o Geitner quer fazer isso”. Sim e Não. Primeiro, ele não admite o seguinte: para o fazer ele vai ter de nacionalizar bancos. Segundo, ele está a abordar o problema da óptica errada. É que o problema aqui não é que há pessoas que não pagam empréstimos. Isso afecta, mas não é isso que torna isto tão dificil. O problema é que os instrumentos em causa (CDO – Collateralized Debt Obligation) são instrumentos hiper-complexos que dependem não só de quem paga, o que se tem e que ratings se tem mas também das correlações entre tranxes. É impossivel “preça-los” em tempo útil. Só o departamento de Junior Debt do Citi Bank precisou de 160 analistas em full time para averiguarem tudo, quando nos anos 90, o banco quase faliu. E Junior Debt é um activo mais simples que CDOs. 

Outro problema é que, a abordagem do Geitner implica comprar os activos para os colocar num “bad bank”. Mas a que preço? A preços de mercado o sistema implode. Por isso é que está insolvente, e dai os problemas. A preços a que estão no balanço o contribuinte apanha uma factura que pode ir até aos 2 biliões de dólares (15% da economia americana). É improvavel que o recupere todo.

Logo, a solução é fazer a coisa ao contrário: um Good Bank!
O  Estado cria Good Banks, capitalizados com dinheiro público e com o capital dos accionistas (que têm de ser eliminados) e uns cortes na dívida obrigaccionista (que não podem ser protegidos!). Agora, em vez de se comprar os activos tóxicos, dificeis de preçar e complexos de gerir, façamos ao contrário: compra-se os activos fáceis! Depósitos, carteira de créditos comerciais, habitação e afins. Ou seja, o lado “saúdavel” dos balanços! Ao mesmo tempo, compra-se as responsabilidades do passivo não relacionadas com os activos tóxicos. O problema nunca foram essas responsabilidades mas sim, que as perdas em activos tóxicos eram tão grandes que os bancos se arriscam a não poder cumprir mais nada.
Depois retira-se as licenças bancárias às entidades que gerem o que restou e voilá!!

Assim, segrega-se os activos tóxicos do resto do sistema, quase como uma imposição de quarentena. O mercado que os assimile. No limite, as entidades que sobraram abrem falencia. Temos pena. O importante é que se criou um sistema bancário alternativo. Agora, é vender as peças que se fez. E vende-se a bom preço: alguém quer o maior banco de investimento sem lixo tóxico? Consigo pensar em muita gente que fazia já fila.

 

Enquanto não se resolver este problema, podem lançar dinheiro de helicópetro! Não resolve nada. Enquanto o crédito não fluir e o sistema bancário estiver bloqueado, a Economia não vai crescer. Olhem para o Japão de 1990 a 2003. O problema deles foi esse.

Termino com uma citação muito recente:

“I thought America had studied Japan’s failures,” said Hirofumi Gomi, a top official at Japan’s Financial Services Agency during the crisis. “Why is it making the same mistakes?”
In Japan’s Stagnant Decade, Cautionary Tales for America, New York Times

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