Bolsa de Lisboa – uma das mais antigas

Sabiam que a Bolsa de Lisboa é uma das mais antigas do mundo? “Pronto…agora é que ele se passou de vez…é Amesterdão, estúpido!” estarão muitos a pensar. Bem, nem por isso. Amesterdão é o mercado de acções mais antigo do mundo (e, tecnicamente, a “genese” está no Mercado de Antuerpia, 1460). Mas, enquanto mercado organizado, Lisboa é mais antigo.

Ao contrário da crença popular, a Bolsa de Lisboa não nasce em 1769 (Marquês de Pombal).  Esta já existia – Marquês de Pombal apenas a deslocou para o Palácio do Comercio e reformou-a, tornando-a na Bolsa de Valores de Lisboa e Porto (BVLP para os amigos, hoje Euronext Lisboa). Antes da reforma, a Bolsa de Lisboa não funcionava num edificio centralizado.

 A bolsa de Lisboa nasce no sec. XIV, pela mão de D. Dinis (um dos reis mais iluminados que tivemos), o que faz dela uma das mais antigas da Europa. Na altura, a principal negociação era uma forma de seguro maritimo inovador, para proteger os navegadores e mercadores portugueses.

Relembre-se que Gregório IX (o papa) tinha proibido (em 1227) os “empréstimos maritimos”, pois constituiam “usura”, logo era preciso um novo contracto para proteger os mercadores. Normalmente refere-se que quem criou o seguro foram os Italianos. Meio certo: mais ou menos na mesma altura, os portugueses também desenvolveram um sistema semelhante, onde, mediante um pagamento de um prémio (uma caução, não um juro, logo fugindo à “usura”), um mercador podia segurar as suas posses em transito.

Há um contexto histórico importante: não esquecer que estamos a falar da altura em que a Marinha Portuguesa ganha um corpo permanente e autonomo, em 1312, por mão real de D. Dinis – o que faz dela, a par da Armada Espanhola, umas das mais antigas marinhas de guerra ainda em operação. D. Dinis  que contrata um genovês, Manuel Pessagna, para ser o Almirante do Reino da nova marinha europeia (Manuel Pessagna muda de nome para Pessanha, torna-se protector do comercio e tão rico que se torna banqueiro em part time. Quando os ingleses (notavelmente o Rei) não pagam, Portugal, pela mão dele, adquire bastantes direitos aduaneiros no Reino Únido). E sim, já faziamos comércio maritimo antes da “inclita geração”. Desde o sec. II a.c. que os algarvios subiam a costa até à Cornualha, para trocarem bronze e estanho por ouro inglês. Também desde o seculo XII que os portugueses iam para mar alto, até à costa da Islandia pescar bacalhau. Pesca e Comercio Maritimo sempre nos esteve no sangue. D. Dinis apenas decidiu criar um pouco de organização à coisa – uma Marinha Real para proteger as rotas, Zonas Francas para comércio (livres de impostos por carta real, as Vilas Francas) e uma bolsa para negociar bens e seguros.

A bolsa de Lisboa adquire real movimento quando, no reinado de D. João II (para mim o maior rei português, a par de D. Dinis) torna Lisboa no centro comercial da Europa, a cidade mais cosmopolita e rica desta (levando Veneza, Egipto e Império Mameluco quase à falencia, no que culminaria na maior vitória da Marinha Portuguesa, a Batalha de Diu) e se faz, nessa bolsa, a transacção de títulos sobre ouro, especiarias, escravos e outros produtos que os portugueses se entretinham a comerciar entre a Europa, Africa e o Oriente.

Não esquecer que do sec. XIV ao sec. XVII Portugal é uma potência mundial e Lisboa capital comercial, cultural e académica da mesma. E não só desde a “inclita geração”.  Depois da ocupação árabe, ficou na Peninsula uma grande quantidade de conhecimento cientifico. Al Andaluz era, para os muçulmanos, a “Pérsia do Ocidente”. E essa ocupação deu-nos uma enorme “reserva” de conhecimento tecnico e cientifico. Pedro Hispano, por exemplo, escreve um manual de lógica (Summulæ Logicales) que seria O Manual europeu durante 300 anos. Ele adquire este conhecimento pelo que foi deixado cá pelos muçulmanos, os detentores do conhecimento grego depois da queda do império de Alexandre. Pedro Hispano sobe, em 1276, a Papa: João XXI. 

[Outro exemplo de conhecimento muçulmano deixado na Peninsula é o facto de a terra ser redonda! No sec. X matemáticos muçulmanos tinham calculado o diametro da Terra. Erraram por 20 km. Assim se explica porque é que D. João II ignora Cristovão Colombo. Nós sabiamos que as contas de Cristovão Colombo estavam erradas, que o Mar da China não era onde o genovês achava. Tinhamos razão…]

Logo, era uma evolução perfeitamente natural para Portugal usar o seu conhecimento técnico para comerciar e, por força desse comercio, criar uma Bolsa de valores para efectuar transacções, cobertura de risco e, também, especulação.

One thought on “Bolsa de Lisboa – uma das mais antigas

  1. Tino diz:

    Benjamim Mendes Seixas, judeu português oriundo do Brasil, é dado como um dos fundadores da Bolsa de Valores de Nova Iorque.

    E penso que outro judeu português esteve no desenvolvimento da Bolsa de Londres no século XVIII.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s