Václav Klaus, o concerto das nações e Bruxelas

O Presidente da República Checa, Václav Klaus, foi ao Parlamento Europeu fazer um discurso que se revelou, no mínimo, controverso. Não irei postar o discurso [ver aqui n’O Insurgente, Discurso de Václav Klaus no Parlamento Europeu].  Alguns MEP [Members of European Parliement] abandonaram a sala, outros vaiaram-no.

A razão? Simples… demasiado simples: o Presidente checo foi lá dizer o que todos pensam – a União Europeia “actual” lida [muito] mal com a crítica e a diferença de opinião. Normalmente, qualquer pessoa que critique o actual modo de funcionamento da UE, o seu alheamento em relação ás populações, é automaticamente acusado de “anti-europeista”, rotulado e colocado com um “alvo a abater”. Nada de mais errado. A União Europeia é um bom projecto. Um projecto que nasceu da mais destrutiva guerra de que há memória na Europa e no Mundo. Evolui com um sentimento: que existem problemas que só podem ser resolvidos a nível continental. Trouxe marcos importantissimos como a Moeda Única e as 4 liberdades fundamentais – liberdade de circulação de pessoas, bens, serviços e capital. Infelizmente, a “Quinta liberdade fundamental” ficou pelo caminho… a livre circulação de ideias.

O Parlamento Europeu está distanciado dos seus eleitores. Isso é óbvio. Não basta argumentar que “é o maior parlamento do mundo com maior número de partidos”. A qualidade de um parlamento mede-se pela distância aos eleitores, não pela “pulverização de partidos”. É um facto que muitos europeus se sentem “alheados” do projecto. Cada vez mais alheados. E Václav Klaus faz esse ponto: eliminar a premissa “um país, um voto” é desligar e alienar ainda mais cada país, em especial os mais pequenos. 

Mas o maior ponto de Václav Klaus – e o mais controverso – foi a seguinte afirmação: 

Since there is no European demos – and no European nation – this defect cannot be solved by strengthening the role of the European parliament either.

Ou seja, não existe “um povo europeu” nem “uma nação europeia”. Ignorar isso, para Václav Klaus é cometer um erro histórico. E por muito europeista que sejamos – e eu pessoalmente sou – o presidente checo tem razão: não existe um povo europeu. Existem vários. Fruto da geografia, da história e circunstâncias contextuais em momento de mais de 2 mil anos de história. Qualquer “união europeia” terá de ser, necessáriamente, uma “União de Povos e Nações”. Há que, em Bruxelas, aceitar esta diversidade e diferença, em vez de, à “força” tentar minimiza-la. Não é uma fraqueza, é uma vantagem. Tal como o consenso, que Bruxelas tanto aprecia, não é uma vantagem: sem oposição não há liberdade, evolução e democracia. O Consenso, e o políticamente correcto que depois advém [o “ai de alguém que fale contra o mesmo”] é um bom principio… para burocratas não eleitos!

Não se esqueçam da história: esta não é a primeira vez que a Europa se une, nem é a primeira vez que se tenta “um projecto europeu comum”. ‘É o mais duradouro’, dirão alguns. Nem por isso. Em Viena, no sec. XIX foi feito um congresso [que ficou conhecido com o nome da cidade] onde se decidiu o Concerto das Nações. Estamos a falar de 1814-1815. O objectivo era conter a França, depois de Napoleão [tal como o objectivo inicial da UE era, na sua génese, conter o ódio franco-germanico]. O resultado foi 100 anos de “congressos” onde os países europeus tentavam resolver os seus problemas, em vez de se atacarem constantemente, como era hábito. ‘Houve guerras nesse período’, dirão os mais atentos. Houve, mas eram regionais e periféricas e contidas. Tal como hoje ainda há guerras: a última foi na Sérvia. 

Foi esta paz de 100 anos que deu origem ao desenvolvimento e a um projecto de globalização do mundo. Telegrafo, telefones, vias ferrias, comércio maritimo. Um mundo integrado. Um mundo que implode em 1914, com a Primeira Guerra Mundial, tem uma breve pausa de 1914 a 1929, “desglobaliza-se” e quase que se destroi na Segunda Guerra Mundial [ou melhor, “Primeira Guerra Mundial, a Sequela”]. ‘Pois foi, exactamente por tensões nacionalistas, Guilherme’. Se fosse tão simples era fácil. O problema do Concerto das Nações foi aleanar-se as populações, os povos. Estes começam-se a revoltar um pouco por toda a Europa. Querem moldar o seu futuro, não ter um conjunto de governantes numa qualquer cidade europeia a decidir, sozinhos, o seu destino colectivo. E os lideres nacionais, face a este sentimento, têm uma escolha: populismo para acalmar as populações ou, continuar com o “Concerto Europeu” e acabar com uma “revolução”.

A moral desta história é a seguinte: aleanar os Estados Membros, reduzi-los a provincias [mesmo que não legalmente], distanciar-se dos povos e colocar o poder em burocratas já foi tentado. Por diversas vezes na nossa história, alias. Em todas, o resultado foi o mesmo: a implosão do projecto.

Eu gosto da UE, e gostava de não a ver implodir. Para isso, a UE tem de se aproximar dos seus “constituintes” sem tentar apagar as suas diferenças políticas. União entre Povos, não uma Federação Europeia… há uma grande diferença aqui. 

PS: prova do discurso de Václav Klaus é a reacção. Perante uma critica, a resposta foi vaiar, ignorar, vilpendiar. Vivemos em Democracia. Isto implica Liberdade, inclusivamente de estar errado. E ter o direito a professar algo, por muito errado que pareça, ou contra o “Consenso actual”! E foi na Liberdade que se construiu a União Europeia!

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