Problemas a leste e algumas lições

O países da Europa de Leste estão em apuros. Grandes apuros. Durante a última década, estes países correram deficits das suas balanças de pagamentos bastante altos, ao mesmo tempo que se endividavam em moeda estrangeira. 

Parte do “porquê” reside nos critérios de convergência para a Zona Euro: cambio estável, quase fixo. Isto retirou da lista de preocupações dos devedores e credores o risco cambial. Isto porque, se um polaco, por exemplo, pode escolher entre uma hipoteca em moeda polaca ou uma hipoteca  em francos-suiços (que tem taxas de juro mais baixo), ceteris paribus, escolhe a segunda opção. 

Normalmente, em regime de cambios flexiveis, se toda a gente fizer o mesmo, gera-se um deficit da balança comercial [está-se a importar dinheiro para consumir, sem contrapartida das exportações] e as moedas tendem a descer gradualmente, aumentando a taxa de juro “real” que se paga. Mas no caso presente, isto não ocorreu pois os Bancos Centrais estavam a manter as suas moedas razoavelmente fixas, em convergência com o Euro.

Para quem não percebeu bem o problema do mecanismo cambial, vamos a um exemplo simples. Imaginem que temos o Escudo e estamos fora da zona euro e que, neste momento, 1 euro = 100 escudos [valores hipoteticos]. Pedimos um credito de 100 escudos mas em moeda estrangeira, euros [digamos porque, as taxas de juro do Euro são mais baixas que as nossas]. Normalmente, se um país começa a fazer isto em grande escala, as moedas mexem, pois está importar dinheiro. Logo, imaginem que o escudo desvaloriza, ou seja, eu preciso de mais escudos para comprar  1 euro( por exemplo, para um valor de 1 euro = 110 escudos). Isto quer dizer que a minha dívida aumentou! Não se esqueçam, o valor nominal é 1 euro, mas eu agora preciso de mais escudos para esse 1 euro. Imaginem que, amanha, o escudo desvalorizava 50%: a minha dívida passava a valer ‘200 escudos’. Coloquem isto em ponto grande com valores a sério, e têm o problema do Leste Europeu.

Quem está em risco? Bancos alemães, italianos, suécos e austriacos. Enfase para os italianos e austriacos: basta que 10% dos empréstimos não sejam pagos e, por exemplo, o sector financeiro austriaco vai à falência e, pelo caminho, arrasta Italia. Uma falência no Leste Europeu seria o equivalente à falência do banco Kreditanstalt, na Aústria em 1931 [Esta foi A Falência, que coloca a Austria enquanto país na falência e provoca as ondas de choque para o colapso europeu e a Grande Depressão].

Pode-se resolver a questão? Sim, mas exige algum tacto. Antes demais, é preciso que o Banco Central Europeu e o Banco Nacional Suiço estabeleçam “linhas de swap” com os bancos centrais de leste. O que são linhas de swap? São acordos de troca de moeda, para crédito. Basicamente, significa que, um banco central empresta dinheiro na sua moeda a um banco central estrangeiro. Porque é que isto é importante? Porque, existe uma altura em que um Banco Central pode falir: quando o sector que regula está financiado em moeda estrangeira e precisa de liquidez nessa moeda. É que cada banco central só tem a impressora para a sua moeda, não para a dos outros. Foi isto que aconteceu à Islândia: estavam endividados em Euros, Dólares e Francos Suiços, mas não havia “linhas de Swap”, pelo que, o Banco Central nada podia fazer, mesmo que quisesse. Em segundo lugar, vamos ter que lhes dar uma “mauzinha”: muitos destes países não têm capacidade fiscal para os seus bancos: estes tornaram-se grandes demais, para as finanças de pequenos países. 

Pode o mesmo acontecer com um país da Zona Euro? Pode um país da zona Euro falir?

É preciso ter noção que é muito diferente ser um pequeno país com um sector bancário enorme, com moeda própria e pequena ou integrado numa moeda única com estatuto (quase)reserva. No primeiro caso [Europa de Leste, Islândia], no limite, não há impressora para imprimir liquidez [com os custos óbvios em termos de inflação]. No segundo caso, a liquidez está assegurada, e o risco cambial desaparece. É substituido por risco de crédito, i.e., países mais indisciplinados pagam mais.

E aqui é preciso fazer um ponto: Antes demais, o Pacto [de Estabilidade e Crescimento] não era estúpido! Era exactamente para isto que ele servia: garantia que os países eram fiscalmente responsáveis e tinham folga fiscal e financeira para um “momento opps”. Foi ignorado, rotulado de “estúpido”, aligeirado, e agora temos o “Clube Med” [Itália, França, Grécia, Portugal] aflitos sem folga fiscal…

Em segundo lugar, é bom sinal que os spreads de crédito soberano estejam a subir em alguns pontos da Zona Euro. Não, não andei a beber nada [com alcool]. Para do problema que por exemplo, leva Portugal ao sobre-endividamento, foi um “free riding” à Alemanha. De uma década para a seguinte, passamos de taxas de juro a dois digitos para taxas de juro a rondar os 2 a 4 por cento. Existiu alguma mudança estrutural na Economia? Não! Estavamos a benificiar do risco de crédito alemão, por entrarmos no Euro. E muitos economistas referiram isto com um problema: o mercado de obrigações europeu estavam a preçar todos os países como “risco alemão”, quando essa não era a realidade. Havia risco de crédito, e cada país tinha o seu. O facto de agora isso estar a ser constatado, é bom e demonstra o bom funcionamento.

Note-se que os spreads não vão “explodir” para valores inimaginaveis: qualquer especulador que ache que o risco “Portugal” está a ser preçado demasiado alto, tem uma opção simples: compra obrigações em Portugal e vende as alemãs, ficando com a diferença. Este mecanismo de mercado, mantêm a coesão europeia. 

Note-se também que a ideia italiana da “Euro Bond”, i.e., uma obrigação pública a nível europeu, tem muito que se lhe diga. Basicamente, os italianos querem “cavalgar” o risco de crédito alemão outra vez. É um pouco como a cigarra e a formiga. Todos nós sabemos a história, mas agora imagine-se que a cigarra ia pedir dinheiro emprestado, mas em vez de dar a sua garantia e risco, assinava com a assinatura da formiga [que tinha activos, logo era um risco menor]. Não sei se a) a formiga acharia muita piada, b) nós ensinariamos os nossos filhos a seguir o exemplo da cigarra…

Em terceiro lugar, existe liquidez no mercado de obrigações europeu. O que não existe é liquidez à taxa de juro que os países querem. O “clube Med” quer-se endividar com a taxa de juro alemã (3% na obrigação a 10 anos), mas o mercado diz ao “Clube Med” que não: para vocês ou é a 4,5% ou não é! 

A moral da história é uma dura lição sobre Responsabilidade Fiscal e Financeira. Uma lição que a Alemanha e os Nordicos aprenderam à muitos anos/décadas atrás e nós escolhemos ignorar. Pedir-lhes agora para pagarem a nossa festa, dando-nos o luxo de ignorarmos as lições, vai um pouco mais longe que a simples “solidariadade comunitária”.

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