Demagogia Financeira! [aka “It’s the damn banks, stupid!”]

Não há melhor altura para se ser Populista e Demagógico do que uma crise! É fácil, é barato e, bem jogado, também dá milhões [de votos]…e o alvo predilecto de um político nestas alturas são os Hedge Funds. São alvos faceis, pois ninguém gosta de “especuladores”! Logo, fazer reuniões do G20 a acusar os Hedge Funds dos males da economia e prometer “mais e melhor regulação” – ou, citação ipsis verbis, “nenhum mercado financeiro, nenhum produto financeiro, nenhum actor dos mercados poder agir sem regulação ou fiscalização” – fica sempre bem. Errado, mas bem.

Vamos lá esclarecer aqui alguns aspectos da actual crise. Todos nós ouvimos na televisão que a culpa disto são os chamados “activos tóxicos”. No meio financeiro, estes activos são conhecidos com Asset Backed Securities. O que foi feito? Um processo chamado “securitização”. Pegou-se em vários empréstimos imobiliários com vários ratings de crédito e criou-se um “invólucro” para armazenar várias tranches desses empréstimos. Esse “invólucro” toma o nome de Collateralized Debt Obligation – CDO. [na verdade, há outros invólucros mais complexos, mas são derivados deste. Para efeitos desta explicação, que se quer o menos tecnica possível, fica apenas a menções que existem outros: Collateralized Loan Obligation, Cubed CDO, e por ai adiante. A lógica mantêm-se.] 

Este processo visava o seguinte: credit enhancement, ou seja, tornar a CDO menos arriscada que as suas tranches individuais, fazendo “pooling” de várias tranches. Pooling é basicamente, juntar vários riscos no mesmo involucro. É uma forma de diversificação. Este invólucro era fechado com o que se chamou “estrutura em mezzanine”. “Me-quantas, Guilherme?”… Não se assustem, parece mais complicado do que é: Cria-se um veiculo de investimento (SIV – Special Investment Vehicle) e divide-se em Capital Próprio (Equity) e Dívida (Junior e Senior). Para quem não percebe de Contabilidade: Dívida Senior está na primeira linha de recuperação em caso de falência, seguido de dívida junior e equity. Isto quer dizer que, por exemplo, Equity fornece uma almofada: o devedores juniores e seniores  só perdem, quando estes desaparecerem. Os devedores seniores só perdem quando equity holders e junior debt holders forem eliminados. Voilá! Credit Enhancement! 

Para quem está a pensar: “Perdão? Como?”, é simples. Vocês são investidores. O banco oferece-vos uma parte neste SIV, para terem exposição ao portefólio de empréstimos. Se forem Senior Debt Holders, estão na primeira linha. Estas tranches têm menos risco porque têm almofadas: Equity e Junior. Os Equity holders têm o risco, pelo que são melhor remunerados. Criaram-se Asset Backed Securities, que se vão vender. Qual a vantagem deste modelo? O risco sai do balanço do banco e passa para os investidores. Se o empréstimo for à falência [a pessoa não paga a casa], a perda está no investidor, não no banco. Os clientes naturais para este tipo de instrumentos eram os Hedge Funds, pois são instrumentos complexos demais para um investidor tradicional.

Ora, isto criou um incentivo desalinhado para os bancos: estes já não tinham de se preocupar com a qualidade do devedor. O negócio deles é fazer o maior número de emprestimos, empacota-los em CDOs e vende-los aos Hedge Funds. Se algo corresse mal, tinham a garantia bancária explicita dos Tesouros de cada País [Garantia de Depósitos], e a garantia implicita do Banco Central [Injecções de liquidez, garantias bancárias, redução de taxas de juro]. Era uma “Win-Win situation”.

A questão é que este modelo quebra o elo fundamental entre devedor-credor e não o substitui com o elo devedor-investidor. O investidor não tem a informação sobre o devedor e a sua qualidade, logo confia no banco. Este último, como não tem risco de balanço, não está preocupado com essa qualidade, apenas com a quantidade. Outra questão é que, em caso de crise, o principal estabilizador natural do mercado não tem acesso a este: o devedor. Se estas obrigações descem de valor, então o comprador natural é o próprio devedor, pois permite-lhe amortizar a sua dívida abaixo do valor da mesma. Isto cria um mecanismo natural de estabilização: o preço desce, entram os devedores, compram, até deixar de haver incentivos para comprar. No modelo anglo-saxónico, isto não ocorre [Ocorre no Modelo Dinamarquês, que não parou durante a crise:  está de boa saúde e recomenda-se]. 

Mas a verdade é que o mercado de per si começou a corrigir esta falha. Uma das criticas que se aponta aos Hedge  Funds é que deram mercado a estes activos tóxicos. Mas ainda ninguém parou dois segundos para pensar num pequeno promenor: se deram mercado, e os bancos retiraram do seu balanço estes riscos, eles estão a ter perdas do quê? Pois, aqui reside o problema. É que, ao fim de um tempo, os Hedge Funds compraram as tranches de Equity – rating BBB para baixo. Eram arriscadas mas pagavam em concordância, logo, estes sabiam o que estavam a comprar. Mas o promenor curioso é que as tranches AAA – Dívida Senior, no meu exemplo simplificado – não foram vendidas. E foi exactamente aqui que existiram os problemas. 

As tranches BBB para baixo não sofreram o “abanão”: os seus compradores sabiam os riscos que estavam a correr e prepararam-se em concordância. Mas, de todas as tranches AAA, menos de 25 por cento manteve esse rating/risco aparente. Posto de outra forma: em cada 4 CDOs com esse rating, apenas uma se verificou ter esse rating. Os Hedge Funds perceberam isto: estas tranches estavam mal preçadas e artificialmente seguras. Havia, no jargão da indústria, um problema de “correlação” à espera de acontecer, logo, não lhes tocaram.Mas, era essencial para o processo de securitização haver “mercado” para estas tranches.

Os bancos não se importaram de ficar com elas. Há falta de “mercado”, criou-se um “armazém”, nos balanços dos bancos. É que, por Basileia II [Regulação bancária, para todos aqueles que dizem que a banca é desregulada!], activos AAA precisam de muito poucas provisões. Se foram “cobertos por instrumentos derivados”, então podem não ser comunicados no balanço – fica em anexo. Esta cobertura foi feita por “seguradoras”, as famosas “Monolines” [MBIA, Ambac,…], e a AIG. 

Ou seja, o mercado forçou que, permanecesse nos balanços do bancos uma parte dos empréstimos, repondo os incentivos. Mas estes, de tão distorcidos que estavam por diversas actuações do Estado, não entraram no “sistema”.

O que correu mal? Muita coisa.Ddestas tranches, 50 por cento já entrou em incumprimento! Isto colocou as Monolines incapazes de cumprir os seus contractos e obrigou os bancos a revelar estes activos em balanço. E, quando se verificou que os Hedge Funds tinham razão – estavamos na presença de riscos mal preçados – os ratings cairam, obrigando a mais provisões. Quando não cairam – sim, a S&P e a Moody’s fizeram o “jeitinho” – havia outro problema. O preço destas tranches era pública, e tinha de ser marcado no balanço. Se eu registei algo a 100, e ela hoje vale 50, eu tenho que fazer um “write-off” de 50%. E não existe capital suficiente para estas perdas – que deverão andar na ordem dos 2 a 3 biliões de dólares.

É que, embora financeiramente seja indiferente se se financia um negócio com dívida ou cash flow [Teoria da Carteira de Markowitz], fiscalmente a história é diferente: dívida é fiscalmente dedutivel, logo é mais eficiente do ponto de vista fiscal gerir um negócio com muita dívida e pouco capital. Tenta-se minimizar ao máximo dinheiro em caixa e reservas [que, não rendem nada, nem num depósito a prazo ou em Obrigações do Tesouro, pois estes instrumentos estão “indexados” às taxas de juro do Banco Central, que têm o pessimo hábito de as manter demasiado baixas durante demasiado tempo] . Aqui reside uma das principais distorções, que nos leva a esta situação! Assumindo que o banco central mantêm sempre o dinheiro “barato”, e a liquidez a correr, não existe problema… até acontecer uma crise! [E já agora, dívida torna a avaliação de uma empresa mais volatil o que é espetacular… para quem tem Stock Options: quanto mais volatil a acção, mais valiosa a opção].

“Mas o mercado desses instrumentos não está errado e sem liquidez?”, poderão perguntar. A resposta é, nem por isso! O problema aqui não é, nem nunca foi, falta de liquidez, mas sim o preço. Os bancos querem preço A, porque abaixo disso, ficam sem capital. O mercado não quer pagar preço A – pois está sobre-avaliado – e oferece preço B, abaixo de A. Vendedores e Compradores não se encontram. O Estado ajuda a festa, mantendo o “status quo”, e permitindo aos bancos algumas brincadeiras contabilisticas.

A solução não é “regular mais os hedge funds”. Estes não foram a causa dos problemas. Bancos, Agências de Rating, Monolines, Bancos Centrais e Garantias Implicitas a mais foram a causa disto. A solução é isolar a banca destes activos, e deixar o mercado absorve-los, ao mesmo tempo que se repõe os elos essenciais à actividade de crédito e se retira a incerteza do mercado.

Portanto, senhores governantes, se não se importam, que tal deixarem-se de Demagogias Baratas e Populismos afins, e assumirem, de uma vez por todas que, a) O mercado não falhou, foi o Estado, b) o problema não está nos Hedge Funds, está nos bancos, c) o Estado está a criar mais incerteza que a necessária, d) Sim, é necessário intervir, mas não a todo o custo.

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Václav Klaus, o concerto das nações e Bruxelas

O Presidente da República Checa, Václav Klaus, foi ao Parlamento Europeu fazer um discurso que se revelou, no mínimo, controverso. Não irei postar o discurso [ver aqui n’O Insurgente, Discurso de Václav Klaus no Parlamento Europeu].  Alguns MEP [Members of European Parliement] abandonaram a sala, outros vaiaram-no.

A razão? Simples… demasiado simples: o Presidente checo foi lá dizer o que todos pensam – a União Europeia “actual” lida [muito] mal com a crítica e a diferença de opinião. Normalmente, qualquer pessoa que critique o actual modo de funcionamento da UE, o seu alheamento em relação ás populações, é automaticamente acusado de “anti-europeista”, rotulado e colocado com um “alvo a abater”. Nada de mais errado. A União Europeia é um bom projecto. Um projecto que nasceu da mais destrutiva guerra de que há memória na Europa e no Mundo. Evolui com um sentimento: que existem problemas que só podem ser resolvidos a nível continental. Trouxe marcos importantissimos como a Moeda Única e as 4 liberdades fundamentais – liberdade de circulação de pessoas, bens, serviços e capital. Infelizmente, a “Quinta liberdade fundamental” ficou pelo caminho… a livre circulação de ideias.

O Parlamento Europeu está distanciado dos seus eleitores. Isso é óbvio. Não basta argumentar que “é o maior parlamento do mundo com maior número de partidos”. A qualidade de um parlamento mede-se pela distância aos eleitores, não pela “pulverização de partidos”. É um facto que muitos europeus se sentem “alheados” do projecto. Cada vez mais alheados. E Václav Klaus faz esse ponto: eliminar a premissa “um país, um voto” é desligar e alienar ainda mais cada país, em especial os mais pequenos. 

Mas o maior ponto de Václav Klaus – e o mais controverso – foi a seguinte afirmação: 

Since there is no European demos – and no European nation – this defect cannot be solved by strengthening the role of the European parliament either.

Ou seja, não existe “um povo europeu” nem “uma nação europeia”. Ignorar isso, para Václav Klaus é cometer um erro histórico. E por muito europeista que sejamos – e eu pessoalmente sou – o presidente checo tem razão: não existe um povo europeu. Existem vários. Fruto da geografia, da história e circunstâncias contextuais em momento de mais de 2 mil anos de história. Qualquer “união europeia” terá de ser, necessáriamente, uma “União de Povos e Nações”. Há que, em Bruxelas, aceitar esta diversidade e diferença, em vez de, à “força” tentar minimiza-la. Não é uma fraqueza, é uma vantagem. Tal como o consenso, que Bruxelas tanto aprecia, não é uma vantagem: sem oposição não há liberdade, evolução e democracia. O Consenso, e o políticamente correcto que depois advém [o “ai de alguém que fale contra o mesmo”] é um bom principio… para burocratas não eleitos!

Não se esqueçam da história: esta não é a primeira vez que a Europa se une, nem é a primeira vez que se tenta “um projecto europeu comum”. ‘É o mais duradouro’, dirão alguns. Nem por isso. Em Viena, no sec. XIX foi feito um congresso [que ficou conhecido com o nome da cidade] onde se decidiu o Concerto das Nações. Estamos a falar de 1814-1815. O objectivo era conter a França, depois de Napoleão [tal como o objectivo inicial da UE era, na sua génese, conter o ódio franco-germanico]. O resultado foi 100 anos de “congressos” onde os países europeus tentavam resolver os seus problemas, em vez de se atacarem constantemente, como era hábito. ‘Houve guerras nesse período’, dirão os mais atentos. Houve, mas eram regionais e periféricas e contidas. Tal como hoje ainda há guerras: a última foi na Sérvia. 

Foi esta paz de 100 anos que deu origem ao desenvolvimento e a um projecto de globalização do mundo. Telegrafo, telefones, vias ferrias, comércio maritimo. Um mundo integrado. Um mundo que implode em 1914, com a Primeira Guerra Mundial, tem uma breve pausa de 1914 a 1929, “desglobaliza-se” e quase que se destroi na Segunda Guerra Mundial [ou melhor, “Primeira Guerra Mundial, a Sequela”]. ‘Pois foi, exactamente por tensões nacionalistas, Guilherme’. Se fosse tão simples era fácil. O problema do Concerto das Nações foi aleanar-se as populações, os povos. Estes começam-se a revoltar um pouco por toda a Europa. Querem moldar o seu futuro, não ter um conjunto de governantes numa qualquer cidade europeia a decidir, sozinhos, o seu destino colectivo. E os lideres nacionais, face a este sentimento, têm uma escolha: populismo para acalmar as populações ou, continuar com o “Concerto Europeu” e acabar com uma “revolução”.

A moral desta história é a seguinte: aleanar os Estados Membros, reduzi-los a provincias [mesmo que não legalmente], distanciar-se dos povos e colocar o poder em burocratas já foi tentado. Por diversas vezes na nossa história, alias. Em todas, o resultado foi o mesmo: a implosão do projecto.

Eu gosto da UE, e gostava de não a ver implodir. Para isso, a UE tem de se aproximar dos seus “constituintes” sem tentar apagar as suas diferenças políticas. União entre Povos, não uma Federação Europeia… há uma grande diferença aqui. 

PS: prova do discurso de Václav Klaus é a reacção. Perante uma critica, a resposta foi vaiar, ignorar, vilpendiar. Vivemos em Democracia. Isto implica Liberdade, inclusivamente de estar errado. E ter o direito a professar algo, por muito errado que pareça, ou contra o “Consenso actual”! E foi na Liberdade que se construiu a União Europeia!

Preferências ou âncoras?

Nos últimos tempos tenho andado a revesitar a minha “Microeconomia” ao mesmo tempo que ando a descobrir novos temas na área de Finanças Comportamentais. Neste “mix” deparei com uma diferênça curiosa: preferências vs. âncoras.

[Disclaimer: O descrito em baixo é uma teoria “de café” do autor, ainda não testada, contestada ou investigada. Chamem-lhe deambulações mentais.]

Em Microeconomia aprende-se, quase desde o primeiro ano, que um agente é racional. O Homo Economicus não viola as suas preferências, sendo racional nas suas escolhas. Deriva essas mesmas escolhas tendo em conta a sua curva de utilidade – as suas preferências – em comparação com os racios de preços. Uma alteração destes últimos leva a um reavalizar da escolha, dadas as preferências, que o agente não viola.

O comum dos mortais costuma criticar este ponto na Economia, i.e., o nosso pressuposto de racionalidade dos agentes. Inclusivé, muitos economistas dedicam-se a retirar alguma “rigidez” aos modelos, permitindo “miopias” e outras formas de “racionalidade limitada”.

Tenho andado os últimos tempos a pensar – e a cruzar Finanças Comportamentais com Introdução à Microeconomia – e lembrei-me do seguinte: nós podemos violar as nossas preferências – e continuamente o fazemos – mas nunca violamos as nossas âncoras de preço.

O que é isto de “âncoras de preço”? É uma pequena importação da Psicologia. Não sei se sabem, mas o cerebro humano não lida bem com absolutos. O nosso modo de pensar “normal” é por meio de “comparações relativas”. Em abstrato, eu não sei se uma casa nova, de per si, é boa ou má. Eu sei é que tem mais divisões, melhor acabamento que a minha actual, melhores infra-estruturas. Pensamos sempre nesta lógica “em relação a…”.

E quando não há o “comparador incial”? O cerebro cria uma âncora, para futuras comparações. Imaginem, que moram em Lisboa. As rendas cá são caras, mas para um lisboeta é normal. Não há outra comparação. Os preços das rendas em Lisboa tornam-se a sua “âncora de preço” para uma renda. Agora imaginem que, enquanto lisboetas, têm um convite para ir trabalhar para Santarém e pensam num nova casa para arrendar lá. Depois de verem casas em Santarem, fazem a comparação: as rendas em Santarém são baratas. Baratas, face à vossa “âncora” inicial. 

Quem trabalha em marketing está a pensar “Óbvio! Esse é um dos meus objectivos, enquanto publicitário: criar novas âncoras”. Quando eu crio um novo produto, o melhor que tenho a fazer é diferenciar-me. Se não o fizer, o consumidor vai utilizar a sua actual âncora para comparação.Nessa comparação, é uma questão de preço. Mas se eu  fizer essa diferenciação com sucesso, eu torno-me na nova âncora para o meu produto. É assim que a Starbucks consegue vender cafés a 5 dólares a caneca.

“Giro, o que raio tem isso a ver com Economia?” Bem, é que as âncoras, no contexto psicologico, tem um grau de rigidez grande. Por norma, o cerebro é “preguiçoso”, socorrendo-se sempre das suas âncoras [que se reinforçam] e dos seus “esquemas mentais” pré-estabelecidos. A única maneira de forçar o Cerebro a re-equacionar essa âncora ou esquema mental, é força-lo a admitir que esse esquema é uma ameaça para a sua integridade. A velha teoria do sistema nervoso: favor não meter a mão lume… queima!

O meu ponto? Se aceitarmos que violamos as nossas preferências continuamente, o que não violamos são as nossas “âncoras” [tema para investigação e futura tese?] então temos uma fonte de “rigidez nominal” no mercado. Este pode, em dado momento, estar em desiquilibrio, e demorar um tempo a ajustar. Tempo esse que é passado pelo cerebro de cada consumidor a reavaliar a âncora, face à dor que esta está a causar. Por exemplo, reavaliar o pequeno-almoço no café da esquina, devido a uma recessão. Isto que dizer que o mercado demora tempo a ajustar, que as recessões são necessárias e essenciais para garantir o ajuste das preferências [que em dado momento, podem não ser as mais racionais] e que, se calhar, o Estado deve interferir o menos possível neste mecanismo de correcção de erros a que podemos chamar de “recessão”…

E que tal irem gozar com o dinheiro dos outros? (II)

Parece que não fui o único a ficar ultrajado pelo mais recente “negócio” da CGD:

Esta petição visa dar expressão e visibilidade à indignação dos seus subscritores, bem como pôr termo à sucessão de actos de gestão danosa perpetrados pela administração da CGD, com a aparente conivência de alguns dos mais altos representantes do Estado. 

O negócio em questão, recentemente anunciado, entre a Caixa Geral de Depósitos e Manuel Fino sobre a venda de cerca de 10% do capital da Cimpor à CGD por um valor 25% acima do valor de mercado, é apenas mais um capitulo da afronta a que os contribuintes portugueses e povo em geral continuam sujeitos. 

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Exmos senhores, 

O negócio recentemente anunciado entre a Caixa Geral de Depósitos e Manuel Fino, no que concerne à venda de 10% do capital da Cimpor à CGD, é patentemente ruinoso, injusto e, dir-se-ia, mesmo uma afronta ao povo em geral, e aos investidores em particular.

Não é concebível que para evitar dificuldades financeiras de um especulador, o maior banco do Estado (a CGD) vá ao ponto de lhe comprar os seus investimentos falhados 25% acima do valor de mercado, quando na realidade e perante essas mesmas dificuldades, este especulador ou qualquer outro ver-se-ia sempre forçado a vender essas mesmas posições ao preço de mercado ou abaixo deste. 

A diferença entre aquilo que a CGD pagou por esta posição e o preço de mercado, foi uma dádiva pura e simples, de mais de 64 milhões de euros, a este especulador, que se podem considerar retirados directamente dos bolsos do povo português para o bolso do especulador. 

Acresce que, não satisfeita, a CGD ainda concedeu uma opção de compra ao especulador, de forma a que se a Cimpor eventualmente valorizasse, o especulador poderia nela reentrar (tornar a comprar) sem risco. Isto é perfeitamente absurdo. A CGD colocou-se assim na posição de assumir todo o risco do investimento por vez do especulador e, ainda pior, desde logo entregou mais de 64 milhões ao especulador, pelo privilégio de fazer um negócio que ninguém aceitaria fazer de livre vontade. 

Esta aberração ocorre no mesmo momento em que milhares de investidores se vêem a braços com perdas para as quais ninguém se apresta a suavizar pagando acima do mercado. Ocorre ainda no momento em que Portugal está a entrar numa crise profunda, em que centenas de milhar de pessoas perderão o emprego e, no entanto, é ao especulador que a CGD decide entregar dezenas de milhões de euros. Será isto certo? Obviamente não é. 

A ser permitido, este negócio representa a morte da meritocracia neste país. Pensamos que as consequências de sequer se considerar este tipo de negócio, estão a ser subavaliadas pelas instituições. 

Pedimos firmemente que, dentro do possível, sejam feitos todos os esforços para determinar a nulidade deste acto pirata sobre o povo deste país. 

Atenciosamente, um grupo de cidadãos preocupado, 

Em http://www.ipetitions.com/petition/CGD/

Humor (muito) negro

Ou “diferenças culturais”:

What happens when a fly falls into a coffee cup?

The Italian – throws the cup and walks away in a fit of rage

The Frenchman – takes out the fly, and drinks the coffee

The Chinese – eats the fly and throws away the coffee

The Israeli – sells the coffee to the Frenchman, the fly to the Chinese, buys himself a new cup of coffee and uses the extra money to invent a Device that prevents flies from falling into coffee.

The Palestinian – blames the Israeli for the fly falling into his coffee, protests the act of aggression to the UN, takes a loan from the European Union for a new cup of coffee, uses the money to purchase explosives and then blows up the coffee house where the Italian, the Frenchman, and the Chinese, are trying to explain to the Israeli why he should give away his cup of coffee to the Palestinian.

Jewlarious.com

Casamento homossexual, fracturas e igualdades

Entrou para a ordem do dia mais um tema “fracturante”: Legalização dos casamentos homossexuais.

Vamos abstrair-mo-nos de dois factos. Primeiro, que o tema é lançado por puro jogo político – é mais interessante discutir o casamento “gay” do que o estado deplorável do nosso Estado – e segundo, que é preciso algum cuidado quando se lançam estes temas. Estamos numa altura, na história do país, em que se precisa de um país únido para os desafios que se avizinham. Fracturar a sociedade com esta discussão poderá não ser o melhor… 

Mas, dado que ninguém se cala com este assunto, decidi dar o meu [pequeno] contributo: sou contra. “Mas tu votaste a favor do Aborto, como podes ser contra os casamentos homossexuais?”, perguntará quem me conhece pessoalmente. Eu não votei a favor do aborto, votei contra o direito do Estado de legislar sobre essa matéria, uma matéria que é da responsabilidade ética e moral dos país, em especial da Mãe. A minha questão com o Casamento Homossexual é diferente no entanto.

O Casamento é uma instituição pré-Estado e extra-Estado, em primeiro lugar! Nasce muito antes de nós, ocidentais, termos Estados centralizados e organizados com leis codificadas. É uma instituição definida pela sociedade, enquanto “corpo”, e, por maioria de razão, só deveria ser por esta alterado, e não pela “conveniente” mão do Estado. Mas este nem é o meu maior problema. O meu maior problema é a principal argumentação a favor: Somos uma República Democrática com igualdade de direitos e ninguém pode ser descriminado pela sua orientação sexual.

Isto é um argumento perigoso. Muito perigoso. Porque, se eu admito legalizar o casamento homossexual com base nesse argumento, i.e., o casamento é uma união entre duas pessoas que se amam, independentemente do seu sexo, o que me impede de legalizar, por consequência lógica, a poligamia e o incesto?

Antes de me acusarem de “gajo de direita radical” – sou Liberal Conservador, mas não sou Católico, por isso dispensem o argumento “A culpa é da Igreja” – pensem um pouco no argumento: duas pessoas com laços de consanguinidade estão proíbidas de se casarem. Porquê? Porque a sua prole herdará uma “base genética” que poderá revelar-se anómala. Estamos a descriminar? Bem, em abono da verdade, sim. Estamos a descriminar duas pessoas que se amam. Também estamos a proibir este tipo de casamento com base na consequência e objectivo desse acto – criação de familia. Devemos legaliza-lo? Não! É um facto: familias que partilham a mesma base genética, fruto de casamentos consanguineos, são propensas a anomalias e doenças genéticas.

“Isso não tem nada a ver com casamento homossexual”. Não? O argumento é o mesmo: não descriminação por orientação sexual. Se duas pessoas do mesmo sexo se amam, devem poder casar. Se dois irmãos se amam, devem poder casar. Vêem como foi simples? Aceitar o Casamento Homossexual, e a consequente destruição da instituição tradicional do casamento, é aceitar um mar de novas excepções. Incesto por um lado, Poligamia pelo outro. Excepções que eu não estou preparado, nem tenho qualquer intenção, de fazer.

Há alturas em que a igualdade não se aplica. Trate-se de modo diferente o que é diferente. Um filho de um casal homossexual terá uma infância normal? Peço desculpa a todos os homossexuais que possam ler isto: não. É psicologia 101. Nós temos como ideal do que queremos ser, um dos progenitores, e como ideal do que queremos “ter”/amar o outro progenitor. E, homossexualidade não é um comportamento típico do Homem, enquanto especie: apenas 2% da população mundial é homossexual. Tal como é Biologia 101 que é mau termos dois irmãos a ter filhos. Desgasta a base genética, e produz doenças hereditárias. Trate-se de forma diferente o que é diferente, sff!

E que tal irem gozar com o dinheiro dos outros?

Ao que o Negócios apurou, o investidor [Manuel Fino] vai saldar parte da dívida contraída para comprar acções através da entrega de cerca de 10% da cimenteira à CGD. No entanto, o acordo de reestruturação do financiamento dá a Fino o direito de, a qualquer momento nos próximos três anos, recomprar aquela participação. Durante este período, o banco não pode vender as acções.
    O entendimento entre a Investifino, “holding” pessoal de Manuel Fino, e a Caixa ficou fechado na semana passada e deverá ser formalizado através de um contrato de dação em pagamento, a celebrar nos próximos dias. O acordo pressupõe que os 10% da Cimpor sejam avaliados, para efeitos desta cedência de titularidade, acima do actual valor de mercado que ronda os 250 milhões de euros, soube o Negócios.

 

Alguém se importa de me explicar esta como se eu tivesse 2 anos?

O Manuel Fino pede empréstimo à CGD para especular no BCP e entrega acções do BCP e Soares da Costa como garantia. As acções descem de valor, logo ele ou coloca mais capital ou o banco executa-lhe a garantia. So far so good…

Agora expliquem-me como é que se deixa que ele largue na CGD [Banco financiado com dinheiro dos nossos impostos que já teve quase 2 mil milhões de euros em “aumentos de capital”, desde  o início da crise] 10% das acções que tem na Cimpor acima do seu valor de mercado, para servir de garantia ao empréstimo? Acima do valor de mercado? Durante 3 anos? Com uma opção de recompra “grátis”?

É que, ou eu deixei de perceber de finanças ou isto é um grande subsidio!

Na prática o que está a acontecer é isto: [Com valores ficticios]

Imaginem que o valor em dívida é 90 milhões, e o especulador X tem 10 milhões. O especulador compra as acções, e entrega-as como garantia. Ok, activos do cliente são maiores que dívida. Já de sí má gestão [bancária]  de risco aceitar acções tão volateis como garantia, mas adiante. As acções descem de valor, por exemplo, 10 por cento. Garantia vale 90 milhões, mas a dívida é 100 milhões. O Capital do especulador X (10 milhões está em risco). O banco, por regra básica de prudência, tem duas opções: ou informa o cliente que tem de colocar mais capital [dado que Activo = Dívida, o que é muito risco de balanço] ou executa a garantia, e vende as acções e termina o empréstimo.

Agora imagine-se que especulador X têm 10% de uma empresa cotada. Entrega esses 10% mas acima do valor a que está cotado. O Banco aceita, ou seja, o banco está implicitamente a amortizar dívida com activos inflaccionados, ou seja, a conceder um “empréstimo implicito”. Pior, o banco fica obrigado a manter essas acções em balanço, tornando-se susceptivel a esse risco [de desvalorização], mas não o pode largar pois entregou [sem prémio] uma opção de compra ao especulador…

O que me tira do sério não é a especulação [nada contra] ou um banco financiar este tipo de actividades [nada contra]. O que tira do sério é ser um banco público, gerido e mantido com dinheiro dos meus impostos. 

PS: Alguém continua a acreditar que é preciso um Banco Público?