“Na eventualidade de ter um abre latas”

Sabem porque é que Deus criou a Economia? Para fazer com que os astrólogos fizem-se boa figura! E se colocarem um economista num ilha deserta com uma lata de conservas e sem ferramentas, e lhe perguntarem como é que ele vai comer, ele irá responder: “na eventualidade de ter uma abre latas…!”

Piadas como as duas anteriores são constantes. E merecidas, verdade seja dita. Uma das primeiras coisas que aprendi na faculdade foi a frase mágica Ceteris Paribus, i.e. “tudo o resto permanecendo constante“. É a principal ferramenta na toolbox de um economista. “E se não permanecer constante?” perguntaram alguns. Eu respondo, enquanto economista, que se permanecer, Ceteris Paribus, o modelo funciona

Qual é o ponto que quero fazer? A disciplina da Macroeconomia necessita de uma grande revolução. Andámos durante décadas a martelar modelos, a “leva-los à cave, bater-lhes um pouco até que eles se portem bem”, ou melhor, se portem como nós queremos que eles se portem. Algum problema, a culpa é da realidade.

O principal modelo utilizado em Macroeconomia, para análise de medidas e políticas é o DSGE – Dynamic Stochastic General Equilibrium. Tanto os “Novos Classicos” como os “Novos Keynesianos” o usam como framework base. A única diferença entre estas duas escolas dominantes é ao nível do que os economistas gostam de chamar “rigidez nominal”, ou seja, pequenos ‘entraves’ no curto prazo que, por exemplo, tornam a política monetária eficiente no curto prazo, se for inesperada. Qual é o grande problema deste modelo? Os pressupostos sobre o qual é construido.

Mercados Completos. Este é um dos principais pressupostos do modelo. O que quer isto dizer? Quer dizer que existem mercados para todas as contigent claims possiveis para todos os estados possíveis da natureza. *uff*. Grande frase para significar o seguinte: com os activos actuais, todos os futuros resultados em todos os potenciais futuros podem ser replicados. Isto é um grande pressuposto: se é verdade que com os activos actuais eu posso replicar grande parte dos futuros resultados de estados provaveis no futuro, o conceito de Mercados Completos vai um passo mais longe: eu conheço todos os futuros momentos da distribuição de probabilidades. Ou seja, eu sei a probabilidade de todos os acontecimentos futuros. Nestes mercados, todas as restrições orçamentais são cumpridas por defeito, não há falências ou insolvências. 

Como consequência, falta de liquidez é impossivel no modelo [existem sempre activos, agentes e mercados para replicar fluxos de caixa], a não ser que o Economista “martele” um pouco, e introduza alguma “rigidez”.  Mas mais grave: o modelo não responde a questões de insolvência pois não permite que estas sejam colocadas. Por definição, estas não existem, i.e., todas a restrições orçamentais são cumpridas. “Não era mais lógico começar-se por uma ‘Economia sem Mercados’ e ir adicionando?”, perguntaram. Sim, mas a hipotese de “mercados completos” torna a vida do académico mais facil, não tendo de colocar a questão de iliquidez, insolvência e falência dos agentes. [Note-se que, sendo o tempo continuo, e sendo que Mercados Completos implicam mercados futuros para todos os bens presentes, o caso torna-se uma impossibilidade prática:  demasiados “mercados potênciais”, infinitos para ser mais especifico].

Mas o mais grave nem é isto, mas sim o facto deste pressuposto ter por base outro: todos os agentes cumprem os seus contratos. E se não cumprirem? Ceteris Paribus, vão cumprir, dirão os mais teóricos. Se o mundo parar de girar, o Sol não nasce… Isto é mais problemático do que parece, em comércio intertemporal: o valor do contracto tem, implicito, que ele é cumprido, logo, se agentes suficientes não o cumprem, o valor pode tornar-se negativo, colocando um agente para além da sua restrição orçamental. Também nos leva a porque é que são precisas recessões e perdas: é um mecanismo interno de aprendizagem e penalização dos agentes por violarem os seus contractos. Tentar mexer neste mecanismo é extremamente perigoso.

O segundo grande problema deste modelo é o Leiloeiro. Confesso que esta “figura” sempre me fez uma confusão desgraçada. É basicamente um artificio que os economistas arranjaram para garantir o equilibrio a longo prazo. O preço de um activo financeiro amanhã, é um misto do preço de hoje e da expectativa do preço amanhã. O mesmo para amanhã, e para o dia seguinte. Ou seja, no limite, o preço previsto é a soma de todos os momentos futuros desse activos, ad infinitum. Dirão alguns que estudam Economia: “Isso é um problema de optimização matemática dos agentes”. Bem, não exactamente. Em programação matemática é necessário, para isto funcionar, que o futuro distante não tenha efeito no critério de optimização de hoje. É como se o “programador” tivesse uma bola de cristal. É ai que entra o “leiloeiro”: ele é o “agente” que garante isto mesmo, que “anuncia os preços” e garante a “condição de transversalidade”. Traduzindo para português, o “leiloeiro” garante que o futuro não interfere na condição de optimização hoje, logo essa optimização é o equilibrio. Daqui se desenvolve a Hipotese dos Mercados Eficientes, entre outras “belezas”.

Para quem está confuso, é isso mesmo que estão a pensar: os economistas assumem que existe um “Planeador Central com informação perfeita” para garantir o equilibrio geral numa economia descentralizada de mercado. A ironia disto claramente perdeu-se nos corredores de faculdade.

O último grande problema é a linearização de um mundo que é tudo menos linear. Verdade seja dita, quando a base começou a ser feita [inicio do seculo XX] ainda não tinhamos as ferramentas matemáticas para lidar convenientemente com realidades não lineares e/ou caóticas. Mas o mundo evoluiu, a Matemática evoluiu… e a Economia ficou na mesma!

Os modelos não lineares foram “linearizados” num “estado estacionário”. Depois, são lhes dado “choques”, para ver como o modelo – a economia – reage. O problema é que estes choques são “bem comportados”, i.e., são “ruido branco”. Ruido branco é ruido com média e variancia conhecida, e que tende para zero no longo prazo. Se tende para zero, pode saltar do modelo e ser ignorado. Ah! Já me esquecia: os choques são aditivos e independentes, logo não há “feedback loops”, acontecimentos que se reinforçam mutuamente.

Mas, existe uma “consequência não pretendida” disto tudo: quando se dão choques aleatórios e aditivos a um modelo com “foward looking expectations” – ou seja, os agentes optimizam para o futuro, e o leiloeiro está lá para dar uma “maozinha” – o resultado ou é um modelo com flutuações explosivas ou – e aqui vem a parte boa da coisa – um modelo estável, com uma tendencia central de longo prazo, e leves flutuações à volta desse equilibrio. Não existem recessões em L (queda do produto abrupta seguida de estagnação). Apenas agradáveis recessões em V [quedas de produto seguidas com crescimento mais rapido de volta ao equilibrio). Conveniente não acham?

Moral desta história “triste”: está na altura de dar-mos um passo atrás para podermos dar dois passos em frente. Voltar a modelar a economia, mas sem estes pressupostos loucos, com mais realismo, por muito que sejam modelos mais complexos de manipular matemáticamente. Em vez de mercados completos como pressuposto de saída, comecemos sem mercados, numa Economia Robinson Crusue “pré-Sexta-Feira”. Deixemos cair o dogma microeconomico de que os agentes não violam as suas preferências individuais e são perfeitamente racionais. Não o são e violam consecutivamente as suas preferências, o que não violam é as suas ancoras, o que explicaria porque é que tantos investidores se meteram no subprime: criou-se a ancora mental do “bailout”. Se alguma coisa acontecer, o Estado vem salvar. E os investidores optimizaram em função dessa ancôra.

E deixe-se de viver de Dogmas em Economia. Isto é uma ciência, não uma religião!

2 thoughts on ““Na eventualidade de ter um abre latas”

  1. jfd diz:

    Valeu a pena esperar!
    Haja coragem para se dar o tal passo atrás!!!

    A mim sempre me fez confusão a história dos modelos, das economias fechadas, das constantes e das fracas transposições do pouco de Economia que aprendi, para o mundo real…
    Professores pouco pragmáticos, much ado about nothing😉

  2. […] Pela enesima vez: A doença aqui é sobre-endividamento e sobre-consumo alimentado por politica monetária demasiado expansionista e rápida! Advogar isso como solução é o equivalente económico a dizer “a cura para a ressaca é beber mais uma garrafa”! Já discuti esta questão ad nausium. O ponto a reter é que a capacidade de endividamento para consumo tem limites. Está-se a antecipar rendimento futuro para consumo presente logo, no futuro vai ter de se consumir menos e poupar mais, i.e., temos uma recessão. E o Montepio pode-me mostrar o que ele quiser, que enquanto andarmos entretidos com a actual Macroeconomia e o Modelo DSGE – usado em Bancos Centrais para prever a economia – não vamos a lado nenhum, pois está baseado em pressupostos que oscilam entre o irreal e o ridiculo – e fornece conclusões engraçadas. [Para quem está a perguntar “Modelo quê?”, favor ver “Na eventualidade de ter um abre latas”] […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s