Quantitative Easing

Aqui há uns meses, quem falava de Quantitative Easing era maluco. Agora parece que Quantitative Easing virou “Desporto Monetário Internacional”! Honestamente, espero que o BCE não caia nesse erro – a Reserva Federal dos EUA e o Bank of England já caíram, e ao faze-lo, arriscam-se ao mesmo resultado do Japão: estagnação económica ao longo de décadas.

Pela enesima vez: A doença aqui é sobre-endividamento e sobre-consumo alimentado por politica monetária demasiado expansionista e rápida! Advogar isso como solução é o equivalente económico a dizer “a cura para a ressaca é beber mais uma garrafa”! Já discuti esta questão ad nausium. O ponto a reter é que a capacidade de endividamento para consumo tem limites. Está-se a antecipar rendimento futuro para consumo presente logo, no futuro vai ter de se consumir menos e poupar mais, i.e., temos uma recessão. E os analistas podem-me mostrar o que quiserem, que enquanto andarmos entretidos com a actual Macroeconomia e o Modelo DSGE – usado em Bancos Centrais para prever a economia e definir políticas – não vamos a lado nenhum, pois está baseado em pressupostos que oscilam entre o irreal e o ridiculo – e fornece conclusões engraçadas. [Para quem está a perguntar “Modelo quê?”, favor ver “Na eventualidade de ter um abre latas”]

Temos um 2 bigs pictures a não ignorar:

a) Estamos no limiar de um “Grande Rebalaceamento”. Temos uma Economia Ocidental que consome demais, produz e poupa de menos, e o oposto na Ásia. No meio, câmbios que são mantidos “fixos”, que alimentam os desequilíbrios. Isto tem de parar. E está a parar: a produção industrial do Japão, por exemplo, caiu dum penhasco abaixo. “Porque ninguém está a comprar”…sim é verdade. Não é um processo imediato, é um processo que demora o seu tempo: reafectação de capital e factores. Não se constroem fabricas do dia para a noite, a economia não muda de estrutura do dia para a noite. Por isso é que temos recessões, tal como quando estamos doentes temos febre: não é a doença, é o indicador que o organismo está a tratar dele próprio.

b) Tivemos um almoço gratis na Europa Mediterranica: andamos a “usufruir” das taxas de juro alemãs, o que deu sobre-endividamento. Agora, temos que pagar a conta e o mercado está a subir spreads para impor disciplina fiscal. Obviamente que ninguém gosta de ficar a pagar festas, logo queremos que 1. o BCE desça as taxas o mais possível, 2. que a Alemanha pague a conta por nós, que eles são porreiros e foram responsáveis, logo têm dinheiro. Ok, indo ao Quantative Easing: O que é? Imprimir dinheiro, basicamente. Um banco central desce as taxas de juro a zeros no curto prazo, e vai ao mercado de obrigações comprar obrigações que fixam as taxas de juro mais “alargadas”. O objectivo é que a curva de juros [euribor a 1 dia até taxa de juro a 30 anos] seja plana e, preferencialmente, o mais próximo de zero possível.

Porque é que é um erro e o que é que o Japão tem a ver com isso? É que eles tentaram isso, e foi por isso que os bancos demoraram décadas a recuperar!

Matemática de Balanço de Bancos, aula 1:
Um banco com capital próprio próximo de zero pode não estar insolvente. Basta para isso que consiga ganhar mais no activo do que aquilo que perde no passivo. O negócio base dos bancos é simples: brincar com a curva de juros. Têm passivos de curto prazo, activos de longo prazo. Com a curva é normalmente inclinada, i.e., taxas de longo prazo são maiores, eles ganham mais do que pagam. A questão é se o que eles ganham no activo pode compensar a sangria que estão a ter no passivo.

Por isso é que é bom quando existem crises que o mercado imponha maiores taxas de juro. Por um lado, força os consumidores a parar com o endividamento e segundo ajuda os bancos a reconstruir balanço, para o próximo ciclo.

Porque é que Quatitative Easing é um erro? Porque o banco ganha o mesmo que paga, logo, se tem perdas, não recupera balanço. Se não recupera balanço, retrai-se de emprestar dinheiro e fica “zombificado” até recuperar. O que pode levar décadas!

Criam-se incentivos à “pilhagem”: garantias, bailouts, dinheiro dos contribuintes a ser (mal) gasto, prémios mal pagos e casas de banho de 1 milhão de dólares. No final, quem paga a factura é o Estado.

Avançar para este tipo de política é fugir à realidade, atirar a bola para a frente e tem como consequência uma recessão em L: a economia contrai, mas nunca volta a crescer até o sistema financeiro reconstruir o balanço. Japão – 1992-2002. E sim, temos de esperar, pois, a Economia como sistema tem uma caracteristica base: em sistemas complexos a informação é assimétrica, logo é necessário especialização. [ignorem por dois segundos que os economistas assumam que a informação é sempre simétrica… no “aquário, a coisa funciona”].

Moral da história: um “Japão” europeu ou americano vai ser desagradavel. Eles têm a politica social do emprego para a vida – em troca de trabalharem que nem uns cães – e tinham uma “tonelada” de poupança para usar em construções de pontes para lado nenhum. Nós não temos! Temos mercados laborais mais flexíveis – em troca, não trabalhamos que nem uns cães…

Parafraseando um colunista do Finantial Times – Martin Wolf – “Os governos ocidentais parecem Pitons a tentar engolir rinocerontes”. A última que tentou foi no Burma: rebentou. 

E, a brincar a brincar, de demagogia em demagogia, é para lá que caminhamos…

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