Hayek tinha razão: Peak Debt

Agora é que me vão dar um tiro: “Um economista feito a dizer que Hayek tinha razão? Sacrilégio”. Pois é, mas da mesma forma que eu concedo alguns pontos a Keynes – economista que eu considero ter sido largamente mal lido e interpretado – Hayek também tem bons pontos. Um deles é o que acontece depois de uma sobre-expansão do crédito, alimentado por uma mistura de cambios e taxas de juro – “administradas” por um Banco Central.

A dívida tem um pico “máximo”. É impossivel continuar a financiar dívida com dívida ad eternum, pois na essência estamos na presença de “Ponzi Economics”. Charles Ponzi é o pai dos esquemas em pirâmide modernos. O problema destes esquemas é que exigem um ritmo crescente e exponencial de entrada de novos “participantes”, de modo a não ruir. O crescimento atinge eventualmente uma barreira – no limite, o número de seres humanos a habitar o planeta – e colapsa. Isto é relevante porque, um dos pressupostos que é utilizado na “modelação económica” é o pressuposto “No Ponzi Game Condition”, i.e., um agente tem de respeitar a sua restrição orçamental e não pode usar dívida para financiar dívida continuamente.

Quando se paga dívida com dívida, está-se na essência, a adicionar novo stock de dívida ao presente, com contrapartida do rendimento futuro.  “A teoria de Ponzi” entra em jogo quando eu nunca chego “ao futuro”, e vou sempre compensando com mais dívida para o futuro – seja do meu rendimento futuro, seja da geração a seguir a mim, num modelo inter-geracional.

Quase que consigo ouvir alguns leitores a pensarem: “Guilherme, quando um Estado faz isso, só tem de garantir que a economia cresce, e fica tudo bem.” E eu respondo: aqui está a principal falácia do Keynesianismo Moderno – não confundir com Keynes, pois como disse, foi largamente mal interpretado.

Quando um agente usa dívida para pagar dívida, ele está, para efeitos práticos, a fazer crescer o seu stock total de dívida e, por consequência, o seu stock total de juros. Se ele fizer isto continuamente no tempo – o que os economistas gostam de dizer “No limite…” ou seja, quando a brincadeira tende matematicamente para infinito – o stock de dívida cresce exponencialmente, face ao rendimento. Mesmo que o rendimento- leia-se a Economia – cresça a um ritmo constante, temos aqui um problema de dinâmica: para manter este sistema, o ritmo de crescimento da dívida têm de crescer também.

Para quem me perdeu na frase anterior: Se a economia deriva o seu crescimento do consumo e se o consumo deriva o seu crescimento do stock de dívida actual, então para a Economia crescer a dívida tem de crescer. No entanto, como estamos a adicionar mais dívida, estamos a aumentar a componente de juros desse stock total, pelo que, a única forma de “manter tudo constante” é aumentar o ritmo de endividamento. No entanto, tal como num esquema em pirâmide existe um limite à velocidade do crescimento do endividamento e quando este para – basta qeu o ritmo de endividamento se torne cosntante – e chegamos a um pico de dívida.

Como estamos num pico – o stock parou de aumentar – uma economia totalmente orientada ao consumo – como são as ocidentais – deixa de crescer. O stock de dívida torna-se então “grande demais para a Economia”. Ponzi Economics! O resultado é parecido com um esquema de Ponzi: o colapso da “montanha” por não haver mais “participantes” (ou mais dívida, neste caso). O futuro passa a ser agora, mas o serviço da dívida é pesado demais.

Isto não se soluciona com mais consumo ou incentivos, pois o problema é que já não se é capaz de manter um ritmo crescente de endividamento. “Inflacionar-mo-nos para fora da crise” também não funciona. Esta é a teoria de alguns que argumentam que a inflação é a solução. Dado que o stock de dívida, em termos nominais é fixo, se os preços subirem, o stock em termos reais desce. No entanto, esta-se a ignorar que, para isso acontecer é necessário inflação a 2 digitos e essa vai causar uma súbida das taxas de juro no mercado, pelo que, se por um lado o stock diminui em termos reais, por outro os pagamentos de juros aumenta. Não há almoços gratis! [O mesmo caso se pode fazer com a Deflação. Irving Fisher, economista “esquecido”, tinha razão quanto ao problema da deflação: Numa deflação não há uma mera transferência de riqueza de devedores para credores, há destruição de balanços. Dado que os preços descem, o stock real de dívida está a aumentar – lembrem, em termos nominais ele é fixo – esmagando balanços com dívida sempre crescente. A dinâmica de Fisher era simples: aumento do stock de dívida real por deflação, venda de activos para pagar, depressão dos preços dos activos o que iniciava um ciclo em cadeia de activos continuamente a preços mais baixos a suportar sempre mais dívida em termos reais].

Moral da história: qualquer uma das “supostas soluções” tem maus resultados. Seja deixar a deflação funcionar – que como se em Fisher, é catastrófico – quer seja “inflacionar o nosso caminho para fora da crise” – como advogam alguns keynesianos – tem o mesmo resultado: implosão de balanços. Obras públicas e estimulos fiscais dão o mesmo resultado. 

Por isto é que Hayek tinha razão: muito cuidado quando se brinca com os incentivos [monetários] de uma Economia. A distorção pode ser [foi] de tal ordem que se arrisca colocar a Economia numa situação de onde é impossível sair sem enormes custos – leia-se, recessão em L ou Depressão! A uma bolha de crédito não há saída. Ou se cria uma outra bolha para compensar [que foi o que se fez durante quase 20 anos] ou, passando o pico de crescimento de dívida, o sistema dá de si…

PS: Não, não sou austriaco, embora tenha algumas simpatias intelectuais por alguns dos conceitos expressos por essa escola, como por exemplo, a questão referida neste post.

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