Importa-se de repetir?


“Portugal foi objectivamente dos primeiros países a sair da recessão técnica e isto assinala o início da retoma económica”, declarou a mandatária [Carolina Patrocinio], lendo um papel, no parque municipal de Santa Cruz, que ficou apenas a metade da sua capacidade.

Volto de férias (e da UV2009), e leio isto! Devo ter perdido algum episódio, ou faltei a alguma aula de Economia, mas era capaz de jurar que retoma é coisa que ainda não tivemos. Mas, como eu sou uma pessoa simpática e por vezes ingénua, terei todo o prazer em esclarecer a mandatária da Juventude do PS. Ou melhor, a pessoa que escreveu o “papel” a partir do qual ela retirou a fabulosa frase em questão!

Definição de recessão técnica Instituto Nacional de Estatistica (INE): dois trimestres consecutivos de crescimento negativo do PIB, abaixo dos 0,5 por cento. No último trimestre crescemos 0,3 por cento. Logo, estatisticamente, pela definição, sim, já não estamos em recessão técnica (pelo menos até aos próximos… dois trimestres).

Vamos ignorar o que se passa lá fora – que de recuperação tem pouco – em especial no nosso maior parceiro, Espanha. Vamos ignorar que enquanto não existir uma recuperação sustentada do exterior não se pode falar de “retoma económica” em Portugal. Vamos ser simpáticos e focar-mo-nos só mesmo em Portugal e assumir que tudo vai bem no resto do Mundo.

100 por cento de Dívida Externa! Ou seja, podiamos vender o produto de um ano para pagar as nossas dívidas. Não sobrava nada! Isso paga-se, como é óbvio. A esses pagamentos damos o bonito nome de Serviço da Dívida.

Alguém me sabe dizer quanto é que o Estado Português paga por cada euro que pede emprestado? Não? Cerca de 3 por cento por dívidas a 5 anos ou superiores. Alguém acredita que o resto da Economia se pode endividar a menos do que o Estado Português? É que este último sempre tem um certo monopólio: cobrança de impostos.

Não há nem vai haver retoma económica nos próximos tempos. O pouco que crescemos servir para pagar a dívida externa. Se o total da dívida é 100 por cento, então as contas são faceis de fazer: temos de crescer pelo menos 3 por cento para pagar prestações. Menos que isso empobrecemos!

E aqui reside a resposta à pergunta de muitos portugueses! O “porquê” de, durante a última década, termos supostamente crescido mas um povo inteiro queixa-se que está sempre a empobrecer! Em “economês” é a diferença entre Produto Interno Bruto (PIB) e Rendimento Nacional Bruto (RNB).

As manchetes (e os relatórios do Banco de Portugal, por exemplo) referem-se ao PIB, ou seja, por definição, tudo o que é produzido em território nacional. Mas, como grande parte dessa produção é estrangeira, o pouco que se cresce volta ao país de origem. Para os mais desatentos, Investimento Directo Estrangeiro (IDE) também é uma forma de dívida que paga dividendos ao exterior. Se a Microsoft investe em Portugal, no final do ano, repatria os lucros de novo para a sede nos EUA (e aqui reside a razão pela qual nunca gostei da “paixão” nacional pelo IDE).

É aqui que entra o RNB: é tudo o que fica em Portugal! É o rendimento que fica depois de paga a dívida externa, ou os dividendos ao exterior pelo investimento. E esse meus caros psico-leitores, não cresce há quase uma década! E não vai voltar a crescer tão cedo, dado que Portugal está sentado numa montanha de dívida sem tecido produtivo de valor acrescentado! Portugal é hoje, de uma forma simplificada, um castelo de cartas económico…

(Originalmente publicado no Psicolaranja)

One thought on “Importa-se de repetir?

  1. JP Santos diz:

    Trata-se de um “erro” que tem surgido quase sistematicamente pois para que se possa “declarar o fim de uma recessão” não basta que o PIB suba (deixe de cair num trimestre) e infelizmente, no caso português a informação disponível aponta claramente para que seja prematuro declarar o fim da recessão, pois a evolução dos indicadores disponíveis do emprego, produção industrial, construção, vendas a retalho e volume de negócios nos serviços apontam para uma continuação da redução da actividade económica nos últimos meses não permitem de modo algum declarar o fim da recessão, como aliás, foi oportunamente, e muito bem, assinalado pelo próprio Ministro das Finanças.

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