Refundação…

Este post poderia facilmente chamar-se “A deriva do PSD“. Não é recente. Não me refiro a Manuela Ferreira Leite, a Santana Lopes ou a Luís Filipe Menezes. Esta questão ultrapassa em muito qualquer liderança. É neste momento, endémica ao partido.

Desde 1995, o PSD apenas governou 2 anos e meio. Façam as contas: em 14 anos, desde as maiorias de Cavaco Silva, o PSD esteve fora do Governo mais de 11 anos. Normalmente este é o argumento utilizado para focar um ponto: a estagnação da última década é consequência de sucessivas governações socialistas. Talvez, mas a verdadeira lição a tirar não é essa, mas sim, porque é que o Povo português insiste em não confiar em nós?

Podemos usar os argumentos faceis do costume: “O povo foi estupido ontem”, a politica é à base de “pão e circo” ou “cada povo tem o governo que merece”. Não concordo com alguns companheiros de blog nesta questão: Se a mensagem não passou, a culpa também recai – e muito – no mensageiro. Esta é uma das lições primordiais da comunicação.

Olhemos à nossa direita: o CDS-PP. Tinha uma mensagem, um programa, e tinham também comunicação. Nós ficamo-nos pela mensagem. Mas o problema é ainda mais profundo. Erros de mensagem acontecem… mas não derivam numa década fora do poder. Olhemos bem para os resultados de ontem: iguais a 2005. Dois momentos politicos diferentes, dois estilos de liderança que têm tanto a ver um com o outro como o dia da noite e no entanto… o mesmo resultado!

Ontem, tal como em 2005, tivemos o voto FIEL ao PSD. Aquele que não vota em mais ninguém, sem fazer perguntas. O nosso “nicho”. Mas não chega! E escusamos de começar com a guerra “pois, a culpa é de MFL, se fosse ________________ (inserir nome da vossa preferencia) teríamos ganho”. O problema é “estrutural” e endémico ao partido.

Em primeiro lugar, temos um problema base, de falta de estratégia. Alguém, no PSD, se dignou a perguntar “o que é que o eleitor [o consumidor da ‘social democracia’] quer?”. Sentem-se asfixiados? Bem, a julgar pelo resultado, não. TGV? Sim ou não? Daqui é que se define em que tocar e não tocar. Quando há uma crise, as pessoas não querem um partido de poder a falar dia e noite de como as sondagens são más com 30 por cento de indecisos, a democracia é asfixiada… ah e não somos Espanha. E foi isto que passou!

Mas, mais grave: quando um vendedor não sabe aquilo que está a vender, então como se está à espera que ele convença o comprador?! É que afinal, eu não sou o único a não entender bem o que é isto de “Social Democracia Portuguesa”. Há 15 anos que os portugueses também não percebem muito bem! Quem me conhece, sabe que sempre bati nesta tecla: também no pensamento politico temos de nos refundar. A imagem que damos neste momento é de um partido de poder pelo poder.

Falei aqui e aqui disso. Também no conselho distrital de Lisboa, me atrevi a referir este tópico, a uma semana das eleições Europeias. Tal como na altura, tenho a sensação que ninguém vai entender a necessidade de definir o que somos ao eleitorado. O que defendemos. Que se calhar, não somos “social democratas”, e não temos medo de o assumir. Que temos um projecto para o país! Um projecto que não é de esquerda. Que somos um partido que se caracteriza por, embora não confessional, partilhar valores da Democracia Cristã Europeia,  que congrega Conservadores e Liberais, que defendemos um Estado mais pequeno e menos “dirigista” e somos fiscalmente conservadores. Que em suma, não estamos aqui para o poder pelo poder. Que não nos encobrimos com o manto duma pertença ‘social democracia’ [Para quem não entendeu à primeira: Sociais democratas são o burgo ali ao lado que ganhou as eleições!] porque temos medo que o país não vote no projecto que defendemos para o país!

Temos de parar para pensar. Limpar o partido. Reformar a sua estrutura, pesada demais, e desadequada aos tempos que correm. Definir o nosso “produto”, o nosso “projecto” e depois, no fim, arranjar uma estratégia com pés e cabeça para convencer-mos os eleitores a votarem PPD/PSD.

O PP Espanhol esteve uma década fora do poder até se refundar (com Aznar). O Labour inglês teve o periodo Tatchet/Major, quase 14 anos, até aparecer Blair, e refundar o partido. Blair esse que obrigaria os Touries ingleses ao mesmo: 12 anos sem governar, até entenderam, com Ian Duncan Smith e David Cameron, que o problema não eram os eleitores mas sim eles, que tinham uma mensagem má e mal transmitida! Quanto tempo mais vai o PPD/PSD ter de ficar fora dos corredores de S. Bento, até entendermos que temos de parar para pensar e refundar a direita em Portugal?

(Publicado originalmente no Psicolaranja)

One thought on “Refundação…

  1. A. Aldeia diz:

    Meu caro já tinha lido este post no Psico Laranja mas aquilo por vezes é uma rebaldaria tal que prefiro deixar aqui o meu comentário.
    Como já é normal para mim as tuas opiniões tresandam a acutilância e razão e mais uma vez o confirmas e partilho contigo a mesma opinião. Penso que já tivemos a conversa do ganhar e perder na política, posição e expressão que abomino por completo. E quanto a mim é realmente esse o problema dentro do PSD neste momento. Estamos a atingir uma posição de quase clubismo onde o importa é ganhar e quando se perde troca-se de treinador.
    Quando deveriamos andar preocupados em eleger programas, posições, linhas de rumo e soluções para um futuro promissor sustentado andamos a trocar avançados por defesas alternando por vezes pelo meio pelos que estão “à mama” como se diz na gíria.
    O que nos interessa não é somente “ganhar” é construir e lutar por um país e um mundo melhor. Os que não entenderem isso estão no local errado, ou então estarei eu e os que pensem da mesma forma.
    Por isso digo que a MFL de certa forma deu um rumo que importa seguir de futuro, um discurso de Verdade e honestidade para com o eleitorado sem promessas banais e populistas. Não é a líder certa??? Talvez não, mas não quer com isso dizer que esteja completamente errada e que deveremos agora trocar de novo as voltas ao partido e começar do zero.
    É preciso sim, alguém que tenha o mesmo carisma e convicção com um pouco mais de dotes comunicativos e empatia com o eleitorado, que se consiga expressar melhor e passe a mensagem. Devemos apoia-la até Maio de 2010 e aguardar pela sucessão natural, dando e transmitindo estabilidade ao partido, coerência e verdade, não permitindo passar novamente a ideia dos “7 cães a um osso” mas sim dar espaço e tempo para que os futuros candidatos nos mostrem e ao resto do país daquilo que realmente são feitos e o que querem na verdade evitando mais tarde consequências e actos indesejáveis.

    Um grande abraço

    André Aldeia

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