PPD vs PSD

Só sabendo de onde viemos podemos saber para onde vamos. No caso do PPD/PSD é preciso avivar a memória: viemos da Ala Liberal da União Nacional, partido único do Estado Novo.

 Nascemos de um grupo de deputados de direita conservadora que queria Democracia e Liberdade em Portugal. E lutou por ela, na Assembleia Nacional, tentando enfrentar um regime fascista que já tinha passado o seu “prazo de validade”. Nascemos PPD (Partido Popular Democratico) e acolhemos sociais critãos, liberais, pequenos empreededores e conservadores democratas. Todos os que não se reviam nem na direita autoritária com grande tradição em Portugal nem no Socialismo – democrático ou não – foram acolhidos neste projecto. Mas depois mudámos de nome: passámos de PPD a PSD (ou PPD/PSD, como Santana Lopes faz questão de relembrar constantemente).

 Foi uma mudança ideológica? Nem por isso. Foi puro taticismo político de um homem [Sá Carneiro] que lutou pela sobrevivência do Partido enquanto tal. A seguir ao 25 de Abril de 1974 ser de direita era sinónimo de ser “fascista” e não era conveniente lembrar quem eram os fundadores do PPD (ex-deputados do Estado Novo), por muito democratas que fossem – e a história veio provar que o eram!

 Ser “social democrata” era a condição essencial para a sobrevivência. Não esqueçamos que estamos a falar dos mesmos que, durante a Ditadura do Estado Novo tentaram reformar e democratizar o sistema político por dentro. Não eram adeptos de revoluções, mas sim de transições, pelo que preferiram garantir que o PSD sobrevivesse e viesse a ser opção ao socialismo do que “morrer por insensibilidade tactica” – risco que o CDS decidiu correr, embora se tenha “pintado” de “centro democrático e social”.

 Para quê esta conversa toda? No último fim de semana, passaram 35 anos desde essa época. Não entrarei em discussões se Abril está para cumprir ou não, ou se ou feriado devia ser o 25 de Abril ou o 25 de Novembro [eu tendo para o último mas considero que, em última análise, não passa de um fait diver]. Pertenço a uma geração que, felizmente, não viveu nem o Estado Novo nem o PREC. Pertenço a uma geração que, por isso, tem o minimo distanciamento para analisar esse periodo de forma correcta e critica, sem desvios. Nascemos em Democracia, vivemos em Democracia, e não admitimos outro regime político que não a Democracia. Não é isso que está em causa – pois se não fosse o 25 de Abril e o 25 de Novembro, eu não poderia estar aqui a escrever.

 O que está em causa é o enviesamento político que ainda subsiste em Portugal. O que eu gosto de chamar de “O trauma da direita”. Ninguém no seu juizo perfeito, rezam as crónicas, admite que é de Direita. Muito menos Direita Liberal Conservadora. Sacrilégio! Fascistas! E, temos várias consequências deste trauma. A primeira é que acabamos a ter dois partidos “social democratas” em Portugal, compondo 85 por cento da Assembleia da República. Um travestido [leia-se PSD] que é forçado a fazer programas social democratas por puro taticismo eleitorial e outro [leia-se PS] que finalmente entrou no seculo XXI. E não se confudam, o Partido ao qual pertence o espaço da Social Democracia é o “burgo ali ao lado”, o Partido Socialista que, finalmente, se modernizou e aderiu à Terceira Via [Comunistas e Bloquistas irão decerto contestar isto mas adiante].

 E isso levou a duas outras consequências: a abstenção nos actos eleitorais [em particular dos jovens] e a deriva do PSD enquanto opção política, desde que, sejamos honestos, perdemos o poder em 1995 – a verdade é que, de 1995 a 2009 não chegámos a governar 4 anos seguidos!

 Guterres tentou colocar o PS na via da Social Democracia Reformista (no sentido europeu do termo) mas faltou-lhe pulso. Pulso que, gostemos ou não da personagem em questão, Socrates teve. E isso colocou o PS a governar na área onde o PSD costumava ocupar. E dado que nunca assumimos o nosso “corpo ideológico”, herdado desde a fundação, andamos à deriva dos lideres. Toda a gente sabe que, no que diz respeito ao PSD, o lider faz o partido. Se o lider é forte o partido torna-se forte [e esta é a minha esperança com Ferreira Leite], se o lider é fraco o partido enfranquece. Não temos um corpo de ideais que assumamos: esta é a nossa opção! 

E, mais importante que isso, não temos uma opção verdadeiramentealternativa ao socialismo, hoje operado sob a forma de Social Democracia Reformista (favor ver SPD alemão, Partido Trabalhista inglês, PSOE espanhol, e muitos outros). Um verdadeira Direita Liberal em Portugal. Alguns estarão neste momento a pensar “isso não é o PSD… somos um partido Social Democrata Reformista, não um partido ‘democrata cristão'”. É mesmo? Somos mesmo isso, ou habituamo-nos ao “rótulo” e ao “taticismo eleitoral” porque não nos queremos assumir e sabemos que a actual formula – até recentemente com o ‘recentrar’ do PS – funciona? Quem é capaz de contestar o seguinte, como principios defendidos por todos os militantes do PPD/PSD: 

O homem é explorado quando se sente asfixiado pelo aparelho burocrático do Estado;

O homem é oprimido quando, por qualquer modo, lhe é vedada a liberdade interior, ou a abertura ao transcendente espiritual;

O homem é oprimido quando a sua vida privada não decorre com a necessária intimidade;

O homem é explorado, a qualquer nível, quando é sujeito ao exercício tirânico da autoridade ou a imposições abusivas de minorias activistas;

O homem é explorado quando a sua consciência de pessoa é abafada pelas massas ou é objecto de manipulações da sociedade de consumo.

Contra todas as formas de exploração e de opressão, urge lutar, mobilizando as múltiplas conquistas do progresso, com vista a uma nova ética da vida em colectividade.

 Os mais rápidos dirão que isto é o programa do PSD. Desenganem-se… Os mais atentos identificaram de onde vem a citação acima: são os principios da Democracia Cristã europeia, a base fundadora dos partidos de Direita Liberal na Europa. E estão correctos! Somos um partido fiscalmente conservador, económicamente liberal e, com maior ou menor grau, mais ou menos moderado, socialmente conservador. Somos, na nossa essencia, um partido de Direita Liberal e Democrata Cristão. Um “Partido Popular”. Ou acham que foi por mera coincidência que o lugar onde encontrámos “casa” na Europa foi, em primeiro lugar o Partido Liberal Europeu e, desde Marcelo Rebelo de Sousa, o Partido Popular Europeu?

 E depois queixamo-nos que o Povo Português se queixa que “entre o PS e o PSD, só mudam as moscas” ou que os jovens não votam [para quê votar quando, no final do dia, a solução acaba a ser a mesma?]. A única diferença prática é que governamos a Diesel: somos mais baratos e económicos!

 Deixemo-nos de ilusões e assumamos aquilo que somos. Um partido de Direita! Refundemos a Direita em Portugal [e, sejamos honestos, somos o único partido à direita que tem massa critica para esse empreendimento] e deixemo-nos de traumas. A direita sabe ser tão democrata como a esquerda. Esta última não tem o monopólio do Social. Simplesmente advogamos formas diferentes de chegar ao mesmo objectivo. E talvez, só talvez, exista uma faixa da população, que comece a votar. Pois, no estado actual de coisas, uma enorme faixa de pessoas de direita liberal não votará porque não vê a sua “opção prática”. E se calhar o Povo Português – bem mais sábio do que julgamos ou queremos admitir – tem toda a razão quando diz que PS e PSD são iguais. Este último, por mera tactica de poder.

 Não é saúdavel ter um sistema político centrado à esquerda. A balança deve estar centrada. Isso implica uma Esquerda moderna e democrata, ou Social Democrata, e uma Direita moderna e democrata, ou Direita Liberal. E é deste conflito, desta concorrência que se encontram as soluções para o país, não entre um Partido Socialista convicto e um Partido Social Democrata “assim-assim”, embora por dentro, não acredite na mesma, ao ponto de inventar a “Social Democracia Portuguesa”!

 Porquê este discurso todo num blog de um militante da JSD? Porque julgo que esta tarefa nos compete a nós, juventude. Não virá do Partido, demasiado agarrado a lutas pelo Poder ou traúmas do passado recente. Virá da nova geração que não ganhou traumas [para nenhum dos lados] e por isso tem o espirito critico para empreender esta tarefa. Uma geração com ideias diferentes que decerto terá a coragem de ter as “dores de parto” desta iniciativa. E deixo aqui um repto ao Gabinete de Estudos da JSD. Sem malicia, ou gincana política, desafio a actual CPN [que apoio e ajudei a eleger enquanto congressista no último Congresso Nacional] de criar um grupo de trabalho para este tópico: Refundação. Repensar a política, dar um corpo ideológico ao PPD/PSD, assumir aquilo que somos e, se calhar, voltar às origens: voltarmos ao PPD!

 Porque, e para terminar que o Post já vai longo, não o fazer poderá acarretar ficarmos fora do Governo durante muitos mais anos. O PS finalmente evoluiu e isso implica que temos, nós PPD/PSD, que nos assumir e evoluir também. No processo, completar o último passo para uma democracia saudável, uma democracia centrada e não enviesada. E cabe à JSD fazer jús ao repto que Emidio Guerreiro nos lançou: cabe à JSD ser a linha avançada do PSD e a sua consciência critica!

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Carta Aberta ao prof. Dr. Carlos Santos

Ontem escrevi um post – Gastar para sair da crise…? – onde me insurgi (“no pun intended”) contra a política de continuar a tentar resolver a recente crise como “mais estimulos”, “eurobonds” e políticas semelhantes. Referi-me, a um post particular do Dr. Carlos Santos – OCDE apela ao BCE para combater a crise – não se discuta a Europa, não… – onde, pelo meio surgiu um pequeno mal entendido com a pessoa em questão, que teve a gentileza de me deixar um comentário que reproduzo, e ao qual irei responder.

Serviu o pingback para encontrar o seu blog. O que já não foi mau. Pena mesmo foi a linguagem: “explicar para idiotas” e “doutoramento em Macroeconomia”. Primeiro porque corria o risco de alguém lhe devolver o epíteto. Segunto, porque para seu azar eu tenho um grauzinho desses.

Aqui, o mal entendido. O “explicar para idiotas” não se referia ao autor do post em questão, mas sim uma forma sarcástica de me referir a “não economistas” (sou fã da serie “for dummies”, traduzindo “para idiotas” e, por influência materna, sofro de um elevado grau – talvez elevado de mais – de sarcasmo “britânico”). Obviamente que se fosse o meu objectivo insultar, não tinha “linkado” ao post em questão – sei perfeitamente bem que os blogs fazem ‘pingbacks’ frequentes dos links de uns aos outros – e ter-me-ia referido, a querer ser insultuoso, à área de formação do professor em questão: Doutorado em Econometria, pela Universidade de Oxford, facto que estava perfeitamente ciente muito antes de ter escrito o Post. Em segundo lugar, não considero azar meu algum que tenha esse grau académico (grau que não detenho mas faço tenções de o deter). É uma honra ter um Doutorado por uma Universidade de prestigio como leitor deste humilde blog. Espero que tenha lido, e gostado, dos restantes posts deste blog – são quase 5 anos de Posts, verdade seja dita…

Pondo estas coisas de lado, gostava que o seu brilhante raciocínio conseguisse explicar o seguinte:

– só não entraram em insolvência porque estão no Euro. Boa. Mas então porque se conclui que a Irlanda, que está no Euro, demorará 5 anos a recuperar?

Que a Áustria, que tem o equivalente a 70% do PIB emprestado a leste, precisaria de uma política monetária própria se entrar um desses países em default? Porque teve a Espanha de salvar Domingo o primeiro Banco?

E já agora, porque se estima que os EUA, que não estão no Euro, saiam da crise em 2 anos?

– outra nota, a Alemanha que idolatra está na sua maior recessão do pós guerra;

– e quanto aos esquemas de Ponzi, a dívida pública é por definição um encargo inter geracional. É chato para as gerações futuras. Mas prefere isso ou deixar-lhe um mundo falido?

Ora, dado que tenho respeito intelectual pela pessoa em questão – embora não concorde com as suas posições em matéria de política económica – não me atrevo sequer a pensar que o comentário acima é alguma forma de paternalismo académico com perguntas retóricas à mistura, com um objectivo “jocoso”. Não me atrevo sequer  a ponderar essa hipotese. Como tal não me passa pela cabeça, agradeço o elogio, antes demais. Não é todos os dias que tenho um Doutorado por Oxford a chamar a este humilde blogger “brilhante” e vejo as perguntas como um desafio intelectual de Economista para Economista. Desafio que terei o maior prazer em aceitar.

No primeiro tópico, a Irlanda, creio que estamos a falar de coisas distintas. Em lado algum deste blog – e como referi, são quase 5 anos de Postsme poderá ler a argumentar que não estamos numa época recessionária. É impossível ter-se a maior economia do mundo – os EUA, que correspondem a um terço da economia global e o maior consumidor do mundo – em recessão e não termos efeitos no resto do mundo. Alias, nunca fui nem sou defensor da famosa teoria do “Decoupling”, ou seja, que seria possível termos uma recessão nos EUA e termos o resto do mundo alegremente no seu “próprio mundo”. Eu falei em falência, ou seja, ir fazer companhia à Islândia. Se a Irlanda tivesse a sua própria moeda, com a sua próprio Banco Central, então estaria neste momento falido. Tal como a Austria, acrescente-se.

Não entremos em tecnicalidades como, por exemplo, que uma reestruturação de dívida é, para efeitos de por exemplo contratos de cobertura de risco como Credit Default Swaps, um “default event” – e esse facto está a ser reflectido nos spreads desses instrumentos. A Irlanda era – e continua a ser – um “importador liquido de capital”. Se tivesse moeda própria estaria com uma dívida externa altissima, denominada em “moeda estrangeiro” – euros por exemplo. Ora, passivos denominados em moeda estrangeira são impossíveis de gerir por um banco central nacional pois, no limite, ele não pode imprimir o seu caminho para fora da crise (e já voltaremos a esta questão). Quando a crise se tornasse óbvia a Irlanda, como país com deficits correntes continuos, teria um grave problema bancário a nível sistémico. A este nível, o sector bancário é o intermediário entre o deficit entre consumo e produção e é dependente – altamente dependente – de financiamento externo.

Tal como a Islândia o era, e todos vimos como esse triste filme acabou. Por muito que o banco central e o governo tentasse – e tentou aguentar a moeda no “cambio fixo” com menos vida útil da história e garantir depósitos – pura e simplesmente não haveria financiamento para os passivos que se prentendiam. A moeda é a primeira a cavar um “buraco até ao outro lado do planeta”. Pode ser argumentado – para a Irlanda e a para a Aústria – que tendo política monetária autónoma poderiam descer as taxas de juro, desvalorizar a moeda e assim, dar um incentivo à actividade económica. Logo, esta desvalorização forneceria uma “vantagem competitiva” ao país em questão.

No entanto, temos dois problemas: em primeiro lugar, com a “vantagem competitiva” vem também o aumento do serviço da dívida, em activos denominados em moeda estrangeira, pois o stock de dívida é “nominalmente” fixo – dai a deflação ser problemática para o sistema económico, como Irving Fisher demonstrou à mais de 70 anos atrás. No limite a questão é se a actividade económica é estimulada rapido o suficiente para comepensar esse aumento dos custos de serviço de dívida – e o consequente aumento dos custos de novos financiamentos. 

No curto prazo, uma descida do valor nominal de uma destas “moedas independentes” face ao Euro forneceria um incentivo, pois os custos internos são também nominalmente rigidos no curto prazo, pelo que, uma depreciação nominal é uma depreciação real, pelo menos no curto prazo. No entanto, a verdade é que, para a economia típica da Zona Euro – incluindo os mais “problemáticos” casos de Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda, … –  o problema são rigidez reais. O efeito do “incentivo” seria de vida curta, quando além do serviço da dívida acrescido, o efeito de maiores custos (via importações) começassem a fazer “feedback” pelo sistema de preços. No final do dia, teriamos a Islândia versão II, III, …

Uma pequena moeda num contexto de Finanças Globalizadas de pouco serve para amortecer choques assimétricos. E a Islândia é o exemplo acabado desse facto. Portanto, sim, o Euro está a salvar a Irlanda da falência. O que não quer dizer que não aja custos para essa protecção – menos flexibilidade monetária – ou que a correcção vá ser pequena fruto dos excessos do passado – embora seja incorrecto atribuir a culpa inteiramente em ideias “neo liberais”, pois os Irlandeses tinham “planos de investimento público” a 10 anos. O último tinha sido divulgado em 2005. Mas essa discussão fica para outro post. 

A questão dos “70% do PIB emprestados a Leste” em nada suporta a questão da política monetária própria. Pois, se a Austria tivesse política monetária própria, no minuto em que um país a Leste entrasse em default arrastaria automáticamente a Austria para a mesma situação. Ninguém financiaria uma pequena Austria, na sua própria moeda, face a um evento dessa magnitude. Ter-se-ia, pura e simplesmente fuga de capitais, tal como se assistiu fuga de capitais do leste europeu, monetáriamente autonomo, para a Zona Euro. Logo, o Euro fornece um mercado liquido e profundo para emissão de dívida. Dado que não existe união fiscal, o mercado incorpora os riscos individuais de cada Estado-Membro no spread que cobra. Mas os Estados podem sempre emitir dívida, e sabem que, a única questão é preço e que nunca terão um investidor a dizer “não quero pois isso não vale o papel onde está impresso”, como seria o caso de um pequeno país com moeda própria.

Mas confesso que a sua questão “E já agora, porque se estima que os EUA, que não estão no Euro, saiam da crise em 2 anos?” me surpreendeu bastante. É que, comparar – que presumo que não era a sua intenção… escrita rápida? – países membros da Zona Euro com os EUA é comparar maçãs com laranjas – como saberá melhor que eu, dai pensar que não fosse a sua intenção a comparação – pois nenhum país da zona euro corresponde a 1/3 do PIB mundial nem nenhum dos seus bancos centrais emite a moeda de reserva mundial.

Vou assumir que a pergunta tinha como pensamento subjacente não a pertença, ou não, à zona Euro, mas sim as diferenças no modo de ataque à crise, i.e., grandes estimulos “keynesianos” versus a posição mais conservadora da Europa. Antes de começar coma discussão, só esclarecer um facto: o meu suposto “liberalismo absolutista” não é ‘ideológico’. Não sou nem Austriaco nem seguidor da “praxeologia”, e por isso, gosto de me suportar em modelos e dados. Vamos só a um exercicio simples antes de voltarmos à discussão dos “estimulos” (peço desculpa aos mais matemáticamente desinteressados).

Podemos escrever uma simples equação para a despesa de consumo de indivíduos(P), como rendimento(I, depois de impostos) menos poupança(S) menos actual serviço de dívida (A, divida acumulada em tempo t, a multiplicar por uma taxa de juro, i) mais novo endividamento (derivada de A em ordem a t):

equa1Usando dados dos EUA, a maior parte dos rendimentos reais ajustados à inflação não se têm alterado desde os anos 70. Uma implicação simples deste “aplanar” dos rendimentos reais, é que, se olhar-mos para o ratio (P/I) poderemos isolar os efeitos da inflação e teremos uma boa medida da capacidade real de “compra” dos consumidores. Logo, temos:

equa2No que diz respeito à taxa de juro efectiva, para efeitos de serviço de dívida, já foi notado por diversas ocasiões que nos EUA o melhor “proxy” para essas taxas é a benchmark 10 Year Note (figure 4), que usarei como referência (multiplicada por uma constante epsilon a ser determinada). Vemos também pelas figuras 2 e 3 que, a) P/I tem sido razoavelmente constante de 1960 a 1990 e que a partir dessa data começa a subir, por contrapartida de S/I, taxa de poupança.

pi1si1i10t1

Falta-nos ver (A/I), o peso da dívida no rendimento e a sua evolução ao longo do tempo t. A equação em {2} pode ser reescrita como:

equa31E, como A é maior que dA/dt por duas ordens de magnitude, o lado direito da equação dá uma estimativa aproximada de (A/I):

equa41A expressão {4} pode ser vista no gráfico seguinte:

ai1Podemos ver, com dados dos EUA, que de 1965 a 1990 poucas alterações há no ratio, para depois começar o seu crescimento até aos dias presentes. Ora, voltando a olhar para o gráfico 4, vemos que 1990 é o inicio da descida, até aos actuais minimos quase históricos na taxa de juro. Uma época “propricia” a um boom de crédito. Ora, eu não faço a argumentação de que a “culpa” está somente na Reserva Federal Norte-Americana. Baixar a Fed Funds só por sí não seria suficiente para fazer descer o resto da curva, pelo contrário! No entanto, normalmente ignora-se o efeito “moeda de reserva”. Grandes produtores e aforradores, cujo maior cliente são os EUA, são forçados a fazer Reservas em dólares para manter as suas moedas “subavaliadas” e artificialmente “competitivas”. Na prática, isto equivale a estender crédito aos EUA, sendo as receitas das vendas de produtos ao consumidor norte-americano reclicados de novo para o mercado obrigacionista norte-americano, depressionando as taxas de juro, criando mais incentivos ao crédito, ao consumo e as novas exportações dos países produtores. É equivalente a um produtor financiar o consumidor dos seus produtos com crédito para pagar crédito para…voltar a pagar crédito. Evidentemente, não estamos a falar de um sistema sustentável e, em parte, o “Neo-Mercantilismo Asiatico” ajudou a este “sarilho actual”. Mas, regressando ao ponto em questão: a forma da curva em questão na figura 5 sugere um crescimento “logistico”, semelhante ao crescimento usado para modelar populações restritas. 

Com esse framework em mente – logistic growth equations – podemos reescrever:

equa51seguido de:

equa61onde:

equa71

A taxa efectiva de acumulação de dívida é “gerida” por Reff e o pico de dívida ocorre em tempo t1/2. Saltei alguns passoas matemáticos senão isto deixava de ser um post e passava a ser um Paper. Temos, no final, a seguinte equação, tendo em conta {2}:

equa81A0 é o nivel “inicial” de dívida, e Am o nível máximo de dívida atingido em determinado tempo t. 

Moving allong, vamos a uma regressão de minimos quadrados, para ver como se ajusta aos dados:

pi-ols1ai-ols1

Ora, descontando para a volatilidade natural de series, temos de admitir que temos uma boa aproximação à realidade. Sugere também que o “pico da dívida” ou melhor, do ritmo de acumulação de dívida, foi atingindo em 2005, curiosamente o ano em que o imobiliário norte-americano começou a virar em direcção a “sul”. Com isso em conta, vamos extrapolar dois cenários. O primeiro é simples: taxa de poupança mantêm nos níveis actuais (próximos de zero) e as taxas de juro continuam nos minimos históricos actuais. Durante bastantes anos, acrescente-se. O resultado é:

baseline1

Não é propriemente bonito. Depois de uma queda inicial de cerca de 5 por cento, deixa de haver crescimento na capacidade de compra dos consumidores. Estamos, para efeitos práticos, com um consumidor “zombificado”, numa economia que vale 70% consumo. Bem vindos ao “Novo Japão”?

Mas será razoavel assumir que isto é um cenário realista?

É que, tal como um consumidor “normal”, um Estado não está imune a esta dinâmica. Muito pelo contrário. O ponto aqui não é “se o multiplicador keynesiano existe, ou não” ou se é de “1,5 ou 3”. Como diriam os americanos, “The juri is still out on that one”! O meu ponto é que os países do mundo desenvolvido actual estão a fazer “trapézio sem rede”. É que, vamos acentar um facto: o Japão tinha 30% de taxa de poupança, tinha um “mercado” onde emitir a dívida pública, compradores para tal. Os EUA começam a não ter. E para se ter noção disso, teremos de ir ver os dois maiores compradores de dívida pública dos EUA: fundos monetários dos EUA e Bancos Centrais a fazer reservas em dólares (notavelmente, a China, o grande “elefante na sala”). No campo dos últimos, basta observar o “crescimento das Reservas” para termos um pequeno sinal de alarme:

cofer-end-08

Ora, numa altura em que os americanos se preparam para emitir biliões e biliões (europeus, 12 zeros) de obrigações do Tesouro, ter a procura a “desfalecer” não é o melhor dos sinais. Fora o desconforto já verbalizado, de muitos países “credores”, em continuar a financiar os EUA. Não preciso de uma bola de cristal para saber o que vai acontecer ao dólar e, por consequência, ao valor de décadas de reservas feitas numa única moeda – algo que se tem provado altamente destabilizador.

Sobra o segundo maior comprador de Dívida Pública, os fundos de mercado monetário. Mas, não há pior ambiente possível para os fundos monetários que Quantitative Easing. A forma de funcionar de um fundo de mercado monetário é parquear o dinheiro num instrumento seguro com juros, cobrar uma fee de funcionamento, e entregar ao cliente alguma coisa. Com taxas a zero, em Quantitative Easing, os fundos monetários ficam (potencialmente) abaixo da “marca de água”. E mesmo que não ficassem, os clientes deles são o comum dos americanos. E supostamente, não os queremos a poupar, mas sim a consumir…logo não deverão andar a colocar dinheiro nos fundos monetários!

É uma simples questão de “funding”: não há poupança suficiente para suportar estes estimulos sem uma correspondente subida nos juros do mercado… a não ser que a Reserva Federal monetize a dívida pública, e portanto, imprima notas para comprar dívida pública. Podemos discutir, ou não, se um aumento da massa monetária conduz a mais inflação. Já uma vez colocou no seu blog, numa “luta com O Insurgente”, um gráfico onde provava, para o UK, que essa relação não existe. No entanto, não explicou, se estaria a levar em conta o efeito deflaccionário da entrada dos países do bloco de leste e da Ásia, como produtos bastante baratos fruto da mão de obra também barata, não estaria a “ofuscar” o efeito da massa monetária em circulação.

Mas o que não podemos negar é que, mesmo admitindo que massa monetária e inflação não estão interligadas, não se pode admitir que os investidores de obrigações do tesouro irão ver monetização com bons olhos. O dólar abriria, potêncialmente, uma cratera, com todas as consequências de ser a “moeda de reserva mundial”. E estamos a ignorar que, os Estados estão nos seus respectivos limites de dívida, tendo em conta contigent liabilities como segurança social e serviços de saúde. O serviço desta dívida corre o risco de se tornar insuportavel, ou citando Martin Wolf, “o Governos Ocidentais são ‘pitons’ a tentar ‘engolir hipopotamos'”. 

E para terminar, que este post já está excessivamente longo – alias, julgo que quebrei o meu record pessoal, e não sou conhecido pelos meus dotes de sintese – podemos argumentar e contra-argumentar os estimulos keynesianos. Mas não podemos ignorar aquele episódio da história, que supostamente não era possível acontecer: o Japão. Já vamos em 20 anos de taxas de juro coladas a zero e n estimulos económicos. E nunca conseguiram tirar a economia japonesa dum estado de “coma latente”!

E, quem melhor para citar, para terminar este post, que um economista japonês:

Bad debt is the root of the crisis. Fiscal stimulus may help economies for a couple of years but once the “painkilling” effect wears off, US and European economies will plunge back into crisis. The crisis won’t be over until the nonperforming assets are off the balance sheets of US and European banks.

Keiichiro Kobayashi, Senior Fellow at the Research Institute of Economy, Trade and Industry

Espero ter esclarecido mal entendidos, de onde vem o meu suposto “liberalismo absolutista” – que não é ideológico – e espero continuar a te-lo como leitor – tal como eu o leio a si. Volte sempre!

Citações curiosas… (VII)

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É bom saber que ainda existe pelo menos um líder mundial lúcido…

“This crisis did not come about because we issued too little money but because we created economic growth with too much money, and it was not sustainable growth.”

Angela Merkel, Chaceller alemã

E, num momento “dois em um”, um pequeno aviso a todos os advogam mais estimulos, quando os anteriores falharam (como por exemplo, os japoneses, que já vão em quase 20 anos de “estimulos económicos”…sem grande sucesso acrescente-se):

 Insanity is doing the same thing over and over again and expecting different results!

Albert Einstein

Gastar para sair da crise…?

Como se financia isto tudo? Uma solução seriam os Eurobonds. Mas como a Alemanha não quer, continuaremos em recessão em 2010, ano em que se prevê a viragem nos EUA para a recuperação. E sabe-se lá quanto tempo mais…. Experimentem repetir isto a um absolutista do mercado livre e que ache que o Estado já tenha peso a mais. Eu aposto no insucesso da tentativa. Por isso nunca entenderão porque é que as estruturas económicas da Europa estão desenhadas de modo a ampliar os efeitos desta crise.

Carlos Santos, Eleições 2009

A ver se eu consigo explicar isto para idiotas: a Eurobond é uma ideia bonita que trará como consequência a médio prazo o fim do Euro. E para aqueles que dizem “so what?” a resposta é simples – a única razão pela qual Portugal ainda não faliu (ou a Espanha, ou a Grécia, ou a Irlanda…) é devido ao Euro.

O problema aqui é simples. Demasiado simples. Recompensar comportamentos irresponsáveis. Obviamente que a Alemanha não quer, porque a aAlemanha sabe muito bem quem vai pagar o preço. Os países prudentes da Zona Euro vão pagar a festa dos “irresponsáveis”. No strings attached. Isso é, na sua essencia, a Euro Bond. (obviamente que não exige um doutoramento em Macroeconomia para entender que se estamos a obrigar os prudentes a pagar pelos imprudentes, estamos a incentivar os prudentes a deixarem de o ser… se alguém me conseguir provar que isso é bom, pago-lhe um gelado!)

O problema em muitos países actualmente (EUA em particular) não é o preço do dinheiro – i.e., taxas de juro. O problema é insolvencia de balanços pessoais. Os particulares pura e simplesmente já não têm mais capacidade de endividamento. Consumimos hoje os nossos rendimentos futuros, em conjunto com os dos nossos filhos e netos. A solução é ir ao rendimento dos bisnetos?

Esta “deificação da dívida e do crédito” como maná do crescimento económico, parece um pouco como o mito do “motor de movimento perpétuo”, ou seja, um motor que gera mais energia do que aquela que consome. Obviamente impossível, pois viola o principio da Conservação da Energia. Nada se cria, tudo se transforma, é o principio base. O mesmo para a economia: crédito não é mais que rendimento futuro adiantado ao presente. Não é “dinheiro novo”, é uma transferencia inter-temporal. Não se criou nada, transformou-se, de amanhã para hoje. Obviamente que, se transferir-mos demais, do futuro para o presente, quando chegar-mos ao “futuro” temos pouca coisa. 

Tentar ir sempre adiantando o “futuro” para o presente é a essencia de um esquema em pirâmide, um “Esquema de Ponzi”! Eventualmente, a componente de juros é tão alta, que “afoga” a economia. Esta deixa de conseguir suportar o serviço da dívida. É aqui que estamos actualmente.

O “suposto Pai” desta fúria desenfreada de gastos públicos, Keynes, não concordaria com o que se está fazer. E para aqueles que continuam a citar Keynes a torto e a direito, sugiro que o leiam. Em especial, que se inteirem de um facto – Keynes não criou o conceito de “despesa deficitária do Estado”, ou seja, o Estado correr deficits para “incentivar a Economia, em especial o Consumo”. O inventor deste conceito foi um dos seus alunos, Abba Lerner. E depois de aceitar o argumento “conceptual” do seu aluno, Keynes acrescentou:

“but heaven help anyone that tries to put it across.”

Euro bond

No passado fim de semana, fui dar uma volta à Curia, para assistir ao encerramento da Universidade da Europa 2009 e receber o meu diploma pela frequência da Universidade da Europa 2008. No almoço com João de Deus Pinheiro – de balanço do trabalho dos deputados do PSD no Parlamento Europeu – a dada altura, é dito pelo orador, numa referência ao eurodeputado Silva Peneda: “Um eurodeputado muito respeitado, que propôs recentemente uma ‘Eurobond’, e eu [João de Deus Pinheiro] ainda não ouvi um bom argumento contra”. Eu tenho um problema de personalidade grave: não resisto a este tipo de desafios, em especial quando dizem respeito a Economia e, embora não saiba se algum eurodeputado costuma andar pela “Blogósfera”, fica aqui o meu “argumento contra”.

O que é a Euro Bond? Simples: emissão única e centralizada de dívida pública. Em vez de haver dívida pública alemã, espanhola ou portuguesa, emitida por cada Estado Membro, passa a haver um único emissor de dívida pública, um “instituto de dívida pública europeu”. Porquê? Citando directamente do site do PSD Europa, o proponente Silva Peneda argumenta:

Segundo Silva Peneda, para haver mais investimento é necessário que “crédito seja acessível e barato, mas tudo aponta para que nos próximos tempos ele seja escasso e muito mais caro parapaíses mais vulneráveis, como é o caso de Portugal.”

Estes países enfrentam dificuldades acrescidas de financiamento pelo que Silva Peneda defende a possibilidade de passar a haver, a nível da zona euro, um único emitente central de dívida pública europeia, que é, aliás, o cenário mais compatível com a sustentabilidade do euro a longo prazo. 

O crédito para Portugal está mais caro? Sim, está. A última emissão de dívida pública portuguesa foi vendida com uma taxa de juro a rondar 4,5% quando os alemães, por exemplo, pagam pouco mais de 3%. Diversos países – notavelmente o “Club Med” i.e., Itália, Grécia, Portugal e Espanha – estão a pagar mais pelas suas obrigações. As taxas de juro de longo prazo na Europa estão a divergir. “AH! Então é preciso corrigir isso… não faz sentido que na Zona Euro cada um pague uma taxa diferente, para bem da estabilidade do Euro”, estarão alguns prontos a responder.

Pois, aqui reside o centro da questão: é que isto é a correcção, não algo a corrigir. É que há uma confusão comum quando se fala de Moeda Única: numa zona monetária o Risco Cambial – ou seja, que a moeda de um país se dirija para “sul” e,  se o país for muito endividado ao estrangeiro, leve a economia à bancarrota (favor ver Leste Europeu para um exemplo muito prático e demasiado actual!) – é substituido por Risco de Crédito. O primeiro – risco cambial – não desaparece…é transformado em risco de crédito. E este último é um pouco mais facil de gerir. 

Traduzindo em “lingua de gente”: não vamos à falência por cambios, mas se nos endividamos demais ficamos mais pobres relativamente aos parceiros e pagamos mais juros! O facto de estarmos na zona Euro, garante-nos um mercado para colocar a nossa dívida muito mais “profundo” e “estavel”, o que não aconteceria se ainda tivessemos o Escudo. Na nossa situação actual, e tendo o Escudo, não teriamos grande oferta de crédito. No Euro temos oferta que chegue e sobra, simplesmente temos de pagar um pouco mais.

É preciso regressar a 1998 para entender-mos uma questão com o Euro. Quando a zona Euro é criada existe um medo justificado e partilhado por muitos economistas: que a maior parte da zona face “free riding” ao risco alemão. Ou seja, que o mercado assuma que, numa crise, a Alemanha safa todos. Muitos economistas argumentaram que a zona Euro não iria sobreviver por isto… era como que um “almoço gratis” que ia ser dado. Países como Portugal, que no inicio da década pagavam taxas de juro a dois digitos iriam poder endividar-se às “taxas alemãs”, que rondavam os 3 por cento. E neste sentido sim, o Euro foi um incentivo ao endividamento.

Foi por esta razão que se criou o Pacto de Estabilidade e Crescimento – que, nota de rodapé não era estúpido e se tivesse sido cumprido como estipulado não estariamos a ter esta discussão. Era preciso garantir que os Estados aderentes à moeda única tinham uma “regra legal de estabilidade orçamental” e, numa época de crise, teriam espaço e credibilidade orçamental para estabilizar as suas economias.

“Pois Guilherme… isso aconteceu porque não existiu unidade orçamental e unidade politica numa união monetária, pelo que a emissão única de obrigações é a solução!”, costuma ser a resposta que me é dada. Mas ignora a história. Não é a primeira vez que a Europa tem integração monetária. Império Austro-Hungaro (1867-1919) é o exemplo mais próximo do que temos hoje no Euro: muitas regiões com um enorme grau de autonomia politica e financeira, duas monarquias fiscalmente sem união, e uma moeda única gerida por um banco central supra-nacional com um mandato único para garantir a estabilidade dessa mesma moeda e proibido de salvar regiões ou alguma das monarquias. Familiar não é? Pois… bastante! Resultou? Bastante bem, para a época. A moeda era estavel, o Império beneficiou de enorme desenvolvimento económico, mesmo na face de muita tensão nacionalista interna. Só uma coisa fez ruir esta união monetária: a Primeira Guerra Mundial. O Império foi desintegrado pelos Aliados no pós-Guerra (Tratado de Versailles) e lá se foi a União Monetária da Dinastia dos Habsburgo.

Moral da história? Uma União Monetária não precisa de ter como base uma união política e fiscal. Necessita sim de uma regra que obrigue os Estados Membros a uma política de credibilidade fiscal. Esta regra pode ser legal – Pacto de Estabilidade e Crescimento, exigido pela Alemanha aquando da sua entrada no Euro – ou de mercado – a regra no Império Austro-Hungaro e o que está a ocorrer hoje na Europa. A última é simples: países mais irresponsaveis pagam mais até corrigirem as suas trajectórias. E isto é essencial à estabilidade do Euro. Na ausência de um destes mecanismos – e note-se que o PEC já não é um mecanismo credivel, pois ninguém o cumpre, cumpriu, pois ele era “estúpido“! – sofreremos o mesmo destino de uma outra união monetária do final do seculo XIX: a União Latina (Espanha, Grécia, Itália, Sérvia, Suiça, Lichenstein, Venezuela, França, Estados Papais). Esta ruiu exactamente porque não havia união fiscal e não havia nenhuma regra.

Voltando à Euro bond: a proposta visa eliminar este mecanismo de taxas de juro e caminhar para a União Fiscal. Ora, nem a primeira é desejável nem a segunda é necessária para a estabilidade do Euro a longo prazo. Uma euro bond é basicamente pedir um “subsidio” aos alemães. Nós pagamos menos em taxas de juro – eles pagam mais, pois os riscos estão agregados – e deixou de haver incentivos para a prudência. “Para quê se podemos sempre, em crise, pedir aos alemães, em última análise, que paguem a nossa festa?”, será o pensamento do dia.

E para aqueles que me vão responder que União Fiscal e mais União Política serão sempre mais estaveis que este sistema de “regras”, eu respondo muito simplesmente: Numa União Monetária existe dois riscos de estabilidade – fora factores externos como Guerras Mundiais – risco horizontal e vertical. Horizontal é o risco que temos sem União Fiscal e muito autonomia de cada membro. A solução passa por regras – legais ou de mercado. A Vertical é que, numa união fiscal e política não homogénea, como seria a UE se avançamos por este caminho, se corre o risco de abusos fiscais do “centro” ou pelo menos, medo desses mesmos abusos, que formam expectativas que desestabilizam a Estabilidade da Moeda!

Ou seja, na fuga para a frente e na fúria de fazer algo para combater a crise, arriscamo-nos a plantar as sementes do fim do Euro.

Citações curiosas… (VI)

Para hoje, uma citação para os meus colegas de profissão – Economistas:

The human mind cannot grasp the causes of phenomena in the aggregate. But the need to find these causes is inherent in man’s soul. And the human intellect, without investigating the multiplicity and complexity of the conditions of phenomena, any one of which taken separately may seem to be the cause, snatches at the first, the most intelligible approximation to a cause, and says: “This is the cause!”

Leo Tolstoy in Guerra e Paz